sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Eu, cadáver vivente



Amanheci... Não adormeci
Amanhecer...  Só depois adormecer  
Rotina de uma ansiosa
Mal dormir, sonhar...  Não descansar
Memórias vivas de um passado morto
 Sombras me assustam
 Fantasmas me assolam
 Esqueletos me atormentam
Pecados passados me devoram
Males temporários
Efeitos duradouros
Inundada, Rendida, sucumbida, devastada.

Pelo mal que habita em mim

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Linguagem e Ideologia



Muito tem se falado sobre o movimento politicamente correto que engloba a linguagem como uma das principais ferramentas ideológicas. Na contramão do politicamente correto há publicações de livros; uma coleção inteira de guias politicamente incorretos (da filosofia, do rock, do sexo, da história etc.), programa de televisão, filme entre outras coisas. A Secretaria de Direitos Humanos lançou em 2004 a cartilha “Politicamente Correto & Direitos Humanos”. [1] O governo oficializou o que já estava em ação no movimento. Afinal o que é o politicamente correto? Segundo Maria Helena de Moura Neves [2]

O “politicamente correto” é, atualmente, bandeira que se levanta para interpretar atos do dia a dia, numa onda de patrulhamento que tem presença notável na sociedade, com dupla influência e significação: bem-intencionada que é, cria a impossibilidade de qualquer refutação, parecendo intolerável que seja condenada, ou que seja sequer questionada; por outro lado, mal inserida nas mais diversas atividades, como indiscriminadamente vem sendo, é tão intolerável quanto as próprias incorreções políticas[3]

Como amante das Letras, andei refletindo sobre a dupla face da atual linguagem. O ser humano se distingue dos animais pela linguagem/pensamento, que são duas faces de uma mesma moeda. Segundo o estudioso da linguagem Lev Vygotsky (1896-1934): “O pensamento não apenas se expressa em palavras; ele adquire existência através delas”.[4] Portanto é por meio das palavras que o ser humano pensa e articula ideias.

“A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo. (…) Ninguém pode pensar sem palavras.” [5]  (Friedrich Schleiermacher)

Existem diversas obras no campo linguístico que dissertam sobre a relação linguagem e formação de ideias. Para evidenciar tal afirmativa registro mais uma.

[…] A linguagem como elemento de mediação necessária entre o homem e sua realidade e como forma de engajá-lo na própria realidade, é lugar de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade, uma vez que os processos que a constituem são histórico-sociais. [6]

A semântica tem papel fundamental nesse processo de linguagem-pensamento. Semântica é um ramo da Linguística que estuda o significado das palavras, frases e textos de uma língua.  E o que a semântica tem a ver com o politicamente correto? Os ideólogos do movimento fazem uma espécie de “blindagem semântica”, isto é, envolve significados em palavras/expressões que de certa forma retiram ou diminuem seu verdadeiro sentido, alterando não só a linguagem como também os pensamentos respectivos.
O movimento politicamente correto que domina a mídia e as redes sociais, muitas vezes distorcem os fatos, amenizam erros, simplificam o complexo, e nos fazem engolir o que não é aceitável. Além disso, pode ser usada para manipulação interpessoal com objetivo de acobertar realidade ou coagir comportamentos, é uma espécie de patrulha da linguagem/pensamento. Como diz Fiorin: “O discurso é, pois, o lugar das coerções sociais”.[7]
Como é feito essa patrulha/coerção? Justamente pela linguagem, de forma tão sutil que é imperceptível à grande massa. Aos poucos, jornais, revistas, programas de TV, novelas e músicas têm trocado palavras/expressões comuns do dia a dia pela cartilha não oficial do politicamente correto. Em todos os lugares lemos frases de efeito, jargões, clichês que não significam nada, são vazios de sentido, porém amplamente divulgados. As pessoas reproduzem sem conhecer de fato seus significados, uma forma de emburrecimento sutil e crescente em larga escala.
Há tempos não ouço/leio mais a palavra aleijado, agora é deficiente físico. A cartilha oficial está repleta de palavras/expressões que foram substituídas. Alguns termos foram eufemizados, outros foram reformulados (ex: sapatão por lésbica) e há palavras que foram expulsas do vocabulário, alguns termos são proibidos socialmente.
No movimento politicamente correto um dos recursos mais usados é o eufemismo, uma figura de linguagem que tem o objetivo de suavizar uma palavra ou expressão que possa ser rude ou desagradável. Consiste na troca de termos ou expressões que possam ofender alguém por outras mais suaves, seja por serem indelicadas ou grosseiras.
Ex: “O vizinho partiu dessa para melhor.” (Forma branda de comunicar a morte/falecimento).

Outro recurso usado é a linguagem técnica/profissional, uma linguagem especifica de alguma área profissional (ex: jurídica, médica etc.). Essa linguagem pode ser utilizada no exercício de suas atividades profissionais, em conversas com leigos no intuito de esclarecer/ confundir o ouvinte, ou ainda usada de forma falaciosa como argumento de autoridade (bastante utilizada por meios de comunicação em massa).

Exemplo: Apresentora de TV diz “Vamos chamar o Dr. Bráulio Balela para falar sobre aborto”.

Parece-lhe familiar? Em contra partida há expressões/termos que não são pejorativo-ofensivos, no entanto tornaram-se indesejáveis por uma questão ideológica. Há ainda outras palavras que mudaram de significado para atender a agenda do movimento. Vamos aos exemplos. A palavra denegrir na cartilha do governo:

“Denegrir ou denigrir – Esse verbo, com o sentido de aviltar, diminuir a pureza, conspurcar, tornou-se ofensivo aos negros e, por essa razão, deve ser evitado.” [8]

Para o movimento negro/afrodescendente tal palavra é inaceitável. No entanto ao pesquisar a origem, histórico e uso no decorrer de diversos contextos é possível concluir que a palavra “denegrir” não é referência para o racismo.
E o que dizer das palavras “fascista” e “nazista” que lamentavelmente foram tão banalizadas, distorcidas, modificadas?
Enfim, há uma série de fatores para considerar quando analisamos a linguagem de uma comunidade.

Gostaria com esse artigo de alertar sobre o uso de palavras; não se enganem, não existe neutralidade na linguagem, consciente ou não, o que você diz revela o que pensa.

 Referências Bibliográficas

[2] Livre-docente pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Professora da UNESP-Araraquara e da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq). E-mail: mhmneves@uol.com.br
[4] Vygotsky, Lev. A Construção do Pensamento e da Linguagem. Ed. Martins Fontes. 2000
[5]  BRAIDACelso R.  Filosofia E Linguagem.  Clube de Autores. 2013
[6] BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. Editora Unicamp. 2004
[7] FIORIN,  José Luiz  . Linguagem e Ideologia (Série Princípios). Editora Ática. 2005


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A pessoalidade do bebê



Sei que pode parecer irreal, mas um bebê me deu uma lição de moral e  confirmou o que já conhecia em teoria, o bebê é uma pessoa. Como é lindo vivenciar o que tanto li em livros de filosofia e teologia, uma experiência que reafirmou a dignidade ontológica do ser humano.
O Titi tem um ano e meio, é um bebê adorável e bem educado.  A fala dele está em desenvolvimento, isto é, ainda não pronuncia palavras inteiras. Vejo o Titi uma vez por semana e gosto muito de brincar com ele.
Entre uma brincadeira e outra, às vezes faço alguma provocação como tirar a chupeta ou pegar alguma coisa com a qual ele está brincando. A provocação tem o intuito de chamar a atenção e interagir, principalmente quando ele está mais quietinho.  Existe certo prazer em provocá-lo e observar sua reação em diferentes situações.
Um dia, enquanto ele ficava de um lado para o outro com um habitual copo de plástico, fiz mais uma provocação. Sua mãe deixa em suas mãos um copinho descartável com biscoitos de polvilho, creio que é uma maneira de distrai-lo e ao mesmo tempo impedir que ele peça/pegue outras coisas para comer (só acho).
Cheguei e peguei de surpresa um biscoito do copinho, coloquei rapidamente na boca e fiquei mastigando bem na sua frente.  O Titi apesar de não falar, é um bebê extremamente expressivo, você sabe exatamente o que ele “pensa” por meio da expressão facial.
Nesse momento, enquanto mastigava o biscoito que peguei do seu copinho, ele me olho feio, fez uma cara em que dizia: “Sua mal educada, quem você pensa que é pra meter a mão no meu copinho e roubar meu biscoito?”.
Em seguida colocou o dedinho em minha boca na tentativa de pegar de volta seu biscoito, como quem diz “devolve, é meu!”.
O que era pra ser uma mera provocação se tornou uma lição, vou explicar.
Normalmente as pessoas tem o hábito de tratar os bebês como se fossem objetos/ bonecos; beija, aperta, põe chupeta, tira chupeta, brinca, faz careta, pega no colo, rodopia; enfim tratamos os bebês e esquecemos que são pequenos seres humanos.
Como ser humano, um bebê também tem vontades, desejos, limites, é capaz de pensar (conforme suas limitações), comunicar, possui consciência moral e emoções, entre outras coisas.
Ao negligenciar isso estamos negando a dignidade do bebê como ser humano.
O Titi deixou claro que não gostou da minha atitude, ultrapassei os limites ao pegar o biscoito sem sua permissão. Fiquei com a consciência pesada, me arrependi, pois sabia que tinha agido mal; afinal eu não faria a mesma coisa com um adulto, então também não deveria fazer com um bebê.
O Titi não é uma criança egoísta, do tipo que se recusa a repartir o brinquedo ou dividir o que está comendo, por essa razão ficou muito claro que ele “brigou” comigo pela atitude invasiva e não pelo biscoito em si. Ele já tem noção de limites, de certo e errado.
Tentei me retratar, algum tempo depois fiquei brincando de um jeito que sei que ele gosta e o levei para “passear”.  Ele (acho) esqueceu minha falta de educação e além de brincar, me deu seus biscoitos sem que eu pedisse.  
O pior é que não é a primeira vez que sou invasiva com ele; certa vez ao cumprimenta-lo, agarrei-o e beijei-o sem que ele estivesse disposto. Resultado: se afastou e me olhou bem feio com direito a careta.
Espero ter aprendido a lição e levar mais a sério a pessoalidade do Titi e de todos os bebês.
Logo eu!


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Teologia do autoconhecimento



Conheci a expressão “Teologia do autoconhecimento”[i] no livro Inteligência Humilhada, onde o autor Jonas Madureira dedica um capítulo para tratar desse assunto.
O autoconhecimento é essencial para o “ser cristão”.  Muitos cristãos infelizmente menosprezam a psicologia, mas antes de ser uma ciência, a psicologia pura e simples é um encontro com Deus.
Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão). Psicologia poderia ser compreendida então como o "estudo da alma" ou a "compreensão da alma". [ii]
Como cristã creio que não existe melhor “compreensão da alma” do que “ver” Jesus Cristo. Sei que tal afirmação só pode ser compreendida por aqueles que “experimentaram” Deus em suas vidas. Não tenho a pretensão de ser compreendida por todos, e nem é possível.
Antes da minha conversão ao Cristianismo, me interessava por Psicologia, estudei por conta própria durante anos. Queria entender a razão de ser como era, queria saber o motivo de como certos eventos me afetavam, queria me conhecer. Também gostava de Filosofia, li Platão, Aristóteles e Sócrates; minha sede por autoconhecimento foi aumentando. A Psicologia e a Filosofia faziam um belo casal, eu acreditava que poderiam me dar as respostas que a religião não me dera anteriormente (frequentei a Igreja Católica na infância e adolescência).
Por conta dos dilemas existenciais e das feridas emocionais procurei psicoterapia, durante alguns anos foi benéfico. Cheguei a declarar que a Psicologia havia me salvado, e de fato naquela época foi uma solução paliativa, aliviou parte de meu sofrimento.
Mas o conhecimento do meu ser interior mesmo só chegou quando tive um “encontro pessoal com Deus”. (Algumas expressões só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que “nasceram de novo” pelo Espirito Santo). Em todo caso, tentarei explicar.
Segundo o reformador Calvino:

... O homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão Dele examine a si próprio. Ora, por causa do orgulho, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, íntegros, sábios, santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça e indignidade. [...] uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. [...] Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele, e quão completa a perfeição de sua justiça [...] Quando, pois, manifestando Ele sua glória, caímos de tão abalados, prostrados como pelo pavor da morte, e quase aniquilados, conclui-se que o homem não é jamais afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.[i]



Nomeio esse pensamento de Calvino de “teoria do espelho reverso”. O espelho é um objeto que reflete a nossa própria imagem. Num encontro com Deus, Ele é o espelho reverso. De frente ao Espelho não se vê de imediato a própria imagem, mas sim a imagem de Deus. Vemos toda a sua Glória, Majestade, Soberania e Santidade. Esses atributos espelham em nós e revelam a nossa imagem, uma espécie de bate e volta. Eu vejo Deus e sua imagem reflete/revela a minha própria imagem. Então nesse momento, em frente ao Espelho eu vejo duas imagens simultaneamente, a Santidade de Deus e a minha miséria, de forma proporcional. Deus é tão santo, quanto eu sou miserável pecador. Só reconhecemos a medida de nossa pecaminosidade diante da Santidade Dele.
É desse momento em diante que começa a santificação, um processo que ocorre após me enxergar através Dele e conhecer o mal que habita em mim. Saber quem sou eu e quem é Deus fez com que eu buscasse a santidade, ao me conhecer de fato e conhecê-Lo, o desejo de não ser mais quem sou e sim me tornar mais parecida com Ele, tomou conta do meu ser.
Em Crônicas de Nárnia, há uma alusão a esse processo:

Não vou contar como virei dragão, mas vou lhe dizer como deixei de ser dragão. (...) Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. [i]



Assim como Eustáquio/Dragão estamos em mutação, agora que sabemos que somos “dragão” deixamos que Ele, o Leão arranque nossas camadas. Permitimos ser feridos por Suas unhadas, uma ferida que dói e cura ao mesmo tempo. A cura acontece quando deixamos que Ele arranque nossa pecaminosidade, nossas falhas de caráter. Ah como dói abrir mão do nosso “eu”! Mas à medida que a pele (“eu”) é arrancada, nossa verdadeira identidade é recuperada (“imago dei”).
Agostinho de Hipona, o santo queridinho dessa que vos “fala”, sentiu essa ferida e deixou em seu “diário” o relato:

“Feriste-me o coração com a tua palavra, e desde então te amei.”[v]


Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[vi]

Para resumir:
“Sem o autoconhecimento não existe Cristianismo”. [vii]


Referências bibliográficas:




[i] MADUREIRA, JONAS, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017).

[iii]  CALVINO, JOÃO, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1 Edição clássica Cap. I: 1 p.47,48 (Paráfrase minha).

[iv] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia/A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 2009), p.450-1.

[v] AGOSTINHO, Confissões (São Paulo: Paulus, 1997). Livro X, 6:8

[vi] AGOSTINHO. Confissões (São Paulo: Paulus, 1997) Livro X, 27:38 (grifo meu).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Empoderamento feminino



A palavra “empoderamento” está na moda e tem sido pregado constantemente, fruto do movimento feminista. Uma rápida pesquisa na internet e achei Workshop de empoderamento, além de inúmeros artigos/vídeos sobre o tema. Confesso que nunca compreendi totalmente esse conceito conforme as feministas.
Empoderamento segundo Djamila Ribeiro em um artigo na Carta Capital “Para o feminismo negro, empoderamento possui um significado coletivo. Trata-se de empoderar a si e aos outros e colocar as mulheres como sujeitos ativos de mudança.”.
Outro artigo, escrito por Júlia Steuernagel Assis, diz que “Empoderamento feminino é a consciência coletiva, expressada por ações para fortalecer as mulheres e desenvolver a equidade de gênero. É uma consequência do movimento feminista e, mesmo estando interligados, são coisas diferentes. Empoderar-se é o ato de tomar poder sobre si.”.
Pesquisando sobre o conceito da palavra encontrei um que parece um pouco neutro: “Empoderar é um verbo que se refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem. A partir do seu sentido figurado, empoderar representa a ação de atribuir domínio ou poder sobre determinada situação, condição ou característica.”.

Sempre que ouço/leio essa palavra “empoderamento” eu penso em algumas mulheres/amigas. Essas mulheres pra mim representam empoderamento. Elas tem um tipo de poder que não se encaixa no significado feminista,  recebem um poder sobrenatural.

A J*é cristã, psicóloga, dona de casa, esposa de pastor, mãe de três filhos pequenos, sendo um deles ainda bebê, líder do ministério infantil em sua igreja.
A F* é cristã, enfermeira, esposa, dona de casa, mãe de três filhos pequenos, sendo um deles ainda bebê, tem um histórico com trabalho voluntário em relação à gravidez precoce e apoio a gestantes, vive em um país estrangeiro sem apoio de familiares; só ela, o marido e as crianças.
A K* é cristã, esposa, dona de casa, foi profissional do mercado editorial, atualmente empresária do ramo alimentício, criou uma rede de empresariado feminino em sua cidade, mãe de três filhos pequenos, sendo um deles ainda bebê, tem um histórico de atuação em trabalhos na internet com podcast.
A M* é cristã, esposa de pastor, formada em Teologia e Letras, com doutorado e pós-doutorado, mãe de dois filhos pequenos, atuou como professora em seminário bíblico.

Outro dia uma delas me confessou que se sente um fracasso pelo fato de não dar conta de tudo em alguns dias, eu respondi: “pra mim você é a mulher maravilha”.
Acho que todas essas mulheres que eu citei e outras tantas que vivem o mesmo estilo de vida são mulheres maravilhosas, empoderadas.
Imagina, a K* disse “não dou conta de tudo em alguns dias” e eu que não dou conta de mim mesmo em dia nenhum, a vida toda?!
Queria ter metade do poder que essas mulheres têm, não consigo governar a minha própria vida, muito menos uma casa com filhos pequenos, marido e uma carreira em paralelo.
Tenho admiração por essas empoderadas que não precisam fazer uso de atributos masculinos (se masculinizar). Elas usam toda a força e poder da natureza feminina para realizar o que realizam. Ser guerreira sem perder a feminilidade é um desafio em dias que as mulheres recorrem ao movimento feminista para alcançar seus objetivos.
Essas e tantas outras mulheres me dizem que é possível ser empoderada sem ser feminista, é possível ser “mulher cristã maravilha.”.
Para todas essas mulheres maravilhosas: obrigada pelo exemplo.
De uma simples mulher cristã não empoderada.

Obs: * Os nomes das mulheres foram ocultados por privacidade, no entanto são mulheres e histórias reais. Quem as conhece vai identificar.




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fraturas


Na infância é um pouco comum uma criança cair e quebrar o braço, entre uma brincadeira e outra. No final das contas há criança que se diverte com aquele gesso sendo rabiscados pelos amigos.
Já quebrei alguns ossos, e aprendi que osso quebrado é para sempre. Mesmo voltando ao lugar, mesmo colando, mesmo com muita fisioterapia, ele continua quebrado. Não há nada que faça voltar como era antes, é como a porcelana, podemos colar, mas a marca da quebra fica. No caso do osso, a marca é invisível a olho nu, uma radiografia nos mostra a cicatriz.
Com criança é diferente (ouvi dizer), o osso “cola” rapidamente e normalmente se regenera sem cicatriz, pois está em desenvolvimento. No sei como é isso, quebrei meus ossos quando já era adulta, azar o meu.
Aparentemente ninguém diz que fui quebrada. Só eu sinto as marcas da fratura, de vez em quando uma fisgada, uma dificuldade em andar, são lembranças de algo que não deu certo. Precisei de muita fisioterapia.
Coisas imateriais também quebram, podemos “quebrar a cara” quando mergulhamos de forma intensa num relacionamento, quebramos a confiança quando não cumprimos a palavra dada, tantas coisas podem ser quebradas e doem, doem tanto quanto o osso, quando a quebra vem de alguém que amamos.
Quebrar relações significativas é uma das dores mais intensas, sangra, abre chagas profundas que demoram a se curar, algumas não curam nunca.
Assim como acontece com os ossos, as outras fraturas podem deixar marcas, a fisioterapia consiste no perdão, no reconhecimento de que todos somos pecadores, que as pessoas que amamos também são passíveis de erros irreversíveis. O perdão nos ajuda a tratar as feridas, olhar com misericórdia nossos erros (meu e do outro) nos faz mais compassivos e ajuda amenizar a dor.
Embora nem sempre seja possível curar todas as feridas, e as cicatrizes nos lembrem da dor vivenciada; ainda é possível viver, ter um propósito e deixar um legado.
Assim como meus ossos fraturados não me impedem de caminhar; as outras fraturas não me impedem de amar, perdoar, ter misericórdia e compaixão.
Que possamos estar em constante fisioterapia das coisas quebradas em nossas vidas.
Não deixe as “fraturas” empedrar o coração.
Um coração quebrantado está além das “fraturas”.



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Discípulo


Às vezes precisamos descer no mais profundo para resgatar algo muito valioso, é assim que fazem os mergulhadores para resgatar relíquias no fundo do mar.
Às vezes precisamos nos machucar para resgatar pessoas, como os bombeiros fazem com as vitimas dos escombros.
Às vezes precisamos nos abaixar para alcançar o alvo de nosso afeto, como os pais que se agacham para ficar no mesmo nível e falar com seus filhos pequenos.
Foi isso que Deus fez, desceu no mais profundo, a Terra.
Foi ferido para nos tirar dos escombros de nossa existência, desceu à humanidade tornando-se homem para falar com seus pequeninos.
Que nós possamos fazer o mesmo, descer, nos abaixar e até mesmo se deixar machucar para alcançar pessoas.
E assim seguir o Mestre.

Ser discípulo.

sábado, 23 de setembro de 2017

Identidade


As pessoas estão o tempo todo nos dizendo como devemos ser/estar, o que pensar e o que sentir também. Se seguirmos corremos o risco de virar um Frankenstein, um ser com pedaços de outras pessoas.
Infelizmente muitos ainda não conseguem distinguir o “eu” do “tu”, o conceito de alteridade não é bem conhecido e isso traz a tendência de querer colonizar o outro. Transforma-lo à sua imagem e semelhança. Então perdemos nossa pessoalidade, somos roubados de nosso “ser”.
“Ser” é uma das guerras que a vida nos impõe.
A covardia existencial e uma dose de preguiça nos leva a se conformar com o que não deveria. Não se deixar levar pela maré das expectativas alheias requer coragem, requer um levante àqueles que esperam que sejamos outro.
Uma batalha constante aos que nos dizem como agir ou como pensar. Granadas contra os julgamentos precipitados, bombas em direção as etiquetas que nos são pregadas o tempo todo. Uma luta permanente contra as projeções, contras as idealizações e expectativas em relação a nossa pessoa.
Sua identidade está sendo fortalecida cada vez que não permite ser roubado em seu direito de ser quem é. Confesso que nem sempre tenho essa coragem, muitas vezes tenho preguiça em esclarecer “olha não foi isso que eu quis dizer” ou “a minha intenção era outra ao fazer tal coisa”, esse negócio de ficar se explicando não é comigo. Certa vez ouvi de uma amiga: “quando você não esclarece, eu tenho o direito de pensar o que quiser” Quer pensar errado? Pois que pense. De um jeito meio torto, essas situações acabam selecionando os amigos. É muito desgastante ter que explicar o tempo todo, suas ações e palavras. Por isso procuro escolher com critério as situações que devem ser esclarecidas, situações que coloquem em jogo minha identidade ou relações muito preciosas. Porque eu bem sei que nem sempre sou o que os outros pensam. E a única coisa que posso dizer às pessoas que me idealizam é: sinto muito. Simplesmente não posso deixar de ser quem sou em favor do que os outros pensaram ou que gostariam que eu fosse.

Eu sou o que sou.

domingo, 10 de setembro de 2017

A lição dos Ipês



 É possível florir no inverno?
 Às vezes nosso interior entra no modo inverno, então as cores da vida desbotam, vemos as coisas mais cinza que de costume.
Os Ipês tem me mostrado que é possível florir em pleno inverno. Apesar dos galhos secos, o inverno lá fora me diz que o inverno de dentro também é sazonal. Que mesmo estando secos, podemos florir e colorir ao nosso redor. Que dar frutos nem sempre faz parte do ânimo/vontade. Tem certas coisas que são próprias da natureza. Vejo minha vida dando frutos apesar de mim, pois na verdade as flores que nascem não são minhas, não são para mim. Os frutos/flores são obras do Criador que nos usa independente de nosso estado para mostrar sua Bondade e Soberania.
Ele usa meu inverno para florir outras vidas.
 Paradoxos da vida cristã.

domingo, 3 de setembro de 2017

A menina sem estrela



Era uma vez uma menina que nasceu cega.
E permaneceu cega por toda a infância e juventude.
Não sabia cores e não conhecia o que era luz.
Seu sonho era ver as estrelas
Diziam que tinham luz própria e brilhavam no escuro da noite.
Sempre ouvia falar da luz:
“apagar a luz”,
“acender a luz”,
“a luz do sol”.
Entre outras coisas.
Mas não sabia bem como era essa tal de luz.
Já adulta, é submetida a uma experiência.
Ela passa por uma cirurgia e começa a enxergar.
Com a expectativa da visão, agora anseia por ver a luz.
Mas demora a perceber que a luz não é algo que se vê.
A luz é o que torna a visão possível.
A luz é o que torna possível enxergar tudo o que existe.
É a luz que faz com que se enxergue a si mesmo.

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

O milagre da vida


Ser mãe é experimentar o céu e o inferno ao mesmo tempo
É ser a vilã e a heroína na vida de seus filhos.
É tarefa que parece que algumas nasceram sabendo
E outras se esforçam muito para cumprir
É trabalho hercúleo, pois é sobre-humano.
É dizer à sociedade que ainda não é o fim.
É um grito de “Vamos tentar novamente”
Cada vez que uma criança chega ao mundo é um renascer de esperança.
É uma prova que nem tudo está perdido, que o mundo ainda tem jeito, que a maldade ainda tem conserto, é o início de uma nova história que uma nova vida traz.
Uma nova vida faz florescer o melhor nos seres humanos que o cercam.
O sorriso de um bebê contagia o mais rabugento dos seres
E tudo se faz novo, porque uma nova vida é um recomeço.
A vida é um milagre
Cada bebê que nasce é uma flor para esse jardim cheio de ervas daninhas chamado Mundo.
Fé na vida, fé no que virá.
Aguardando... Uma nova flor.
Um novo milagre.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Pedido de perdão para quem me feriu


Querida ex amiga, já disse muitas vezes que não acredito em ex amigo, mas não sei como me referir a você. Pois eu a considerei uma amiga de fato, desde o começo. Na minha vida nunca fui de desfazer amizade, literalmente e virtualmente. Todas as pessoas que passaram pela minha vida, eu sempre fiz questão de preservar, apesar do tempo e da distância. Há raríssimas exceções, em que a outra pessoa decidiu se afastar, e eu fiquei triste, pois não sei lidar com rompimentos, nunca soube. Cada vez que uma pessoa vai embora é como se levasse um pedacinho de mim.
Outra exceção foi quando uma determinada pessoa me feriu tanto que não havia outra saída pra manter minha sanidade senão o rompimento.
Tenho sérios problemas com a rejeição e o desprezo, sentimentos que me acompanham desde a tenra idade.
Talvez você não saiba o impacto que suas duras palavras e seu desprezo tiveram em mim, creio que não tenha noção do tamanho da ferida que abriu em minha alma.
Sei que fui imprudente em confiar meus segredos mais íntimos a alguém que mal conhecia, você parecia tão confiável! Ainda mais pelo fato de ter sofrido pelos mesmos pecados. Jamais imaginaria que aquilo que eu guardava tão bem guardado e depois desabafado num momento de fraqueza seria usado como uma arma contra mim.
“Queria ter alguém com quem conversar, alguém que depois não usasse o que eu disse contra mim.”
Sempre ouvi dizer que se queremos segredo, devemos guardar os nossos próprios segredos. Minha conselheira bíblica estava distante na época e considerei você a pessoa certa para abrir o coração. Como já disse, não é culpada da minha imprudência. Assumo toda a culpa em depositar a confiança tão cedo em alguém que não conhecia direito.
Paguei não só pelo meu equivoco, mas por toda uma gama de consequências. Nosso desentendimento, minha mágoa, um forte sentimento de ter sido traída, um desejo de vingança ( que você sentisse um pouco da dor que eu estava sentindo) e vários outros sentimentos negativos e destrutivos que alimentei por meses.
Doeu sentir minhas vulnerabilidades se voltando contra mim, você colocou o dedo em minha ferida e apertou com força, mas você não conhecia minhas feridas, então tudo bem.
Minhas vergonhas foram expostas de uma forma cruel, sem piedade ou misericórdia. Estava tão fragilizada com a dor do meu próprio pecado que só o que queria era colo, acolhimento. Alguém que me dissesse que eu conseguiria mais uma vez superar essa fraqueza, que me ajudasse a me levantar da milionésima queda.
Mas o que tive foi um sermão moral, um “eu te disse”, a Lei aplicada rigorosamente. Como a mulher adúltera, sei que merecia as pedras, você não errou em atirá-las. A errada sempre fui eu. Errei em tomar a iniciativa, em abrir minha vida para uma desconhecida, em confessar pecados que você não estava pronta para ouvir e acolher. Errei principalmente em confiar em alguém que não conhece nem 1% da minha história e de como tudo que aconteceu me afetaria. Enfim, você não é culpada por não saber do que me aconteceu, ninguém é.
Mas as pedras que atiraste fizeram feridas que deixou cicatrizes. Juntou-se a tantas outras que trago. Ninguém é responsável pelas minhas feridas, faz parte da vida e dos planos de Deus para mim.
Como um mosaico, essas pedras futuramente serão um belo quadro, tenho plena convicção disso.
Nada é em vão na vida de um cristão. Deus trabalha em nossos sofrimentos, nos molda, nos aperfeiçoa, Ele transforma o mal em bem. E que todas minhas feridas sejam usadas para ajudar ao próximo e honrem meu Senhor. Só gostaria de lhe deixar partir em paz.

“Vai, se você precisa ir
Não quero mais brigar
Nossas acusações infantis
E palavras mordazes que machucam tanto
Não vão levar a nada, como sempre
Já brigamos tanto
Mas não vale a pena”

Perdoe-me por ter errado tanto em tão pouco tempo contigo.
Perdoe-me por não ter sido um exemplo de cristã para você.
Perdoe-me por ter te magoado também.
Perdoe-me por ter colocado altas expectativas sobre sua pessoa.
Perdoe-me de ter nutrido pensamentos e sentimentos ruins em relação a você.
Desejo que você seja curada. Eu ainda estou no processo.
Enfim, aqui jaz uma futura amizade.