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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Despersonalização: eu, fora de mim

 



Eu, que não sou eu

Eu, na tela da realidade

Vivendo a irrealidade

Fora de controle

Fora do meu corpo

Fora da minha vida

Desrealizada

Despersonalizada

Eu, fora de mim.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Caranguejo






A astrologia diz que é signo.
A astronomia, constelação.
Tem no mar.
Tem no mangue.
No mar, assusta.
Na vida...
Susto, tristeza, angústia.

Tem em desenho animado.
Alguns o têm no prato.
Outros, no corpo.
Outros ainda, na alma.

O imperador de todos os males.
Nunca foi
Nunca será
O maior mal.

Maior é Quem está em mim.
Quem está em ti.
Muito maior é Aquele...
... Que dividiu a História
... Que é o Início e o Fim.
... Que cura todos os males.
O Imperador de todas as nações.

terça-feira, 19 de março de 2019

O Demônio do meio dia




O Demônio do meio dia não aparece somente ao meio dia
Ele vem ao meio dia e no restante do dia
O Demônio do meio dia aparece também à meia noite
O Demônio do meio dia não tem hora
Ele vem noite e dia
Dia e noite
Madrugada adentro
Às vezes Ele parece ausente
Sorrateiro
Chega
Invade meu templo
Acampa
Faz festa
Saí sem limpar a sujeira que deixou
Volta
Traz seus filhotes
Demoninhos que entoam a canção da morte:
“Ninguém se importa com você”
“As pessoas não gostam de você”
“Você não faz diferença pra eles”
“Fulano só te suporta por obrigação”
“Sicrano só fala com você por educação”
“Tá vendo! Visualizou e não respondeu, te ignorou.”
“Aquela pessoa só está te usando”
“Você não faz falta no mundo”
“Essas pessoas não fazem a menor questão da sua presença”
“Sua ausência não é notada nesse ambiente”
Monstrinhos perturbadores
Minam sua autoestima
Acabam com seu senso de valor.
O trabalho deles é te diminuir.
Fazer você se sentir um nada, um lixo.
Melhor ter a Solidão como companhia.
Ela, até que me faz bem.
Aprendendo a viver a cada dia entre
o Demônio do meio dia e a Senhora Solitude.


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Suicídio: Por que você não se mata?




“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. Albert Camus

Essa é uma questão filosófica, que envolve o sentido da vida. Toda pessoa deveria pensar e responder essa pergunta. Todos os dias pessoas cometem suicídio. As razões são diversas; perda do trabalho, crise financeira, luto, doenças, crise afetiva amorosa. Por alguma razão o peso da vida se tornou insuportável, não enxergando mais motivos para viver ou por não conseguir uma maneira de superar os problemas, vê-se a morte como uma solução, a única saída para o absurdo da vida. Uma das razões mais comuns para o suicídio é a depressão.

Transtorno e sofrimentos psicológicos parecem se espalhar pelo ar nos nossos dias, como um vírus que contamina a vida moderna. Nossas dores se multiplicam e ganham nomes, centenas de nomes. E organizações de saúde já falam em uma epidemia de depressão. Ela é um demônio que não nos deixa levantar, que nos espreita ao meio dia, que caminha ao nosso lado como uma sombra. O que não muda nunca é o sofrimento humano, mas em um mundo hedonista não há espaço para as angustias, coisa de gente mal resolvida. Falar de melancolia é falar da dor humana e do sentido da vida.
                                                                              Luiz Felipe Pondé




O suicídio é um assunto bastante delicado e um tabu, repleto de opiniões divergentes. Há quem diga que a pessoa que tira a própria vida é covarde, fraco por não continuar lutando. Há quem diga que o suicida é corajoso por ir contra a natureza humana de preservação da vida. Não creio que essas visões abarcam a totalidade da questão. Durante muito tempo pensei em escrever sobre o assunto, sem saber como dissertar sem me expor, acho que não sei escrever sem ser autobiográfica.
Certa vez um amigo me perguntou: “Você acredita em milagres?”.
Minha resposta: “Minha vida é um milagre, toda a minha vida é um milagre. Eu vivo de milagres.”.
Poucas pessoas conhecem minha história, gostaria de contar tudo o que vivi e tornar públicas as minhas experiências. Talvez ainda não seja o momento. Por enquanto vou dando “spoilers”. Acredito no poder do testemunho e tornarei pública minha experiência com o suicídio.
A tristeza se fez presente muito cedo em minha vida, tinha uma personalidade melancólica, pessimista e cética; quase um Schopenhauer de saia.
Por volta dos doze anos de idade, eu tentei me matar. Já era um pensamento  recorrente, mas não sabia como colocar em prática.
Prestando atenção nas reportagens sobre artistas que morreram de overdose descobri que muitas dessas overdoses envolviam uma mistura de drogas/remédios com álcool. Foi nessa época que li o relato do Marcelo pela primeira vez, o autor conta em “Feliz Ano Velho” que tentou o suicídio, como bem sabemos sua tentativa não deu certo. Mas comigo daria, pensei.

“Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal? A única certeza que tenho é de que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?”[...] Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava passando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali deitado, e era eu que estava desejando minha própria morte. Mas nem disso eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca. Foi o que eu prometi a mim mesmo. “Se eu não voltar a andar, darei um jeito qualquer pra me matar.” Era bom pensar assim. Eu não tinha medo de morrer. Era muito mais fácil a morte que a agonia daquela situação.
Marcelo Rubens Paiva


Numa noite antes de dormir, fui até a caixa de remédios dos meus pais e peguei vários comprimidos, não entendia nada de medicamentos e não fazia a menor ideia do que estava pegando. Tomei os comprimidos junto com um copo de aguardente, a famosa pinga 51.  Deitei-me achando que morreria enquanto dormia e no dia seguinte amanheceria sem vida.
Quando acordei no dia seguinte, a primeira coisa que pensei foi: "Droga! Não morri!" e "Nem pra morrer eu presto!”.
Nunca mais tentei acabar com a minha vida, mas pensei inúmeras vezes.
Anos mais tarde descobri que os remédios que eu havia tomado eram homeopáticos e, portanto não tinham o poder de matar. Uma das coisas mais ridículas da minha biografia com certeza. Minha história com o suicídio não termina aqui, ainda.
Já adulta fiz trabalho voluntário numa ONG de prevenção ao suicídio. Coincidência?
Trabalhei mais ou menos 10 anos e ouvi coisas inimagináveis. Protegidas pelo anonimato, as pessoas não tinham receio algum e rasgavam seus corações para os voluntários.  Um trabalho que me fez adentrar no mundo daqueles que perderam a vontade de viver, caminhando com suas dores, consegui sentir melhor os dois lados da moeda, isto é, a vontade de partir ao mesmo tempo, o desejo de ficar. O fato de conhecer tão bem o drama de quem não quer mais viver, me fez valorizar mais a vida. A verdade é que eles não queriam de fato morrer, queriam deixar de sofrer, acabar com a dor.
Não pensei em tirar minha vida durante muito tempo, até ser atingida por uma tragédia, de fato.  No auge da vida adulta sofri um grave acidente de trânsito. Era independente, trabalhava, fazia faculdade, tinha uma vida social ativa e em menos de um segundo tudo mudou. “Feliz Ano Velho” foi relido, teve um efeito catártico. 
Após meses imobilizada numa cama, meses de fisioterapia, sofri também as consequências psicológicas. Tive quatro doenças simultâneas: estresse pós-traumático, depressão, transtorno de ansiedade e de despersonalização.  Tudo junto e misturado. 
 Então o pensamento de morte voltou, era uma ideia extremamente atrativa diante do que estava vivendo.

Em meio ao tratamento psicológico, fui liberada para voltar ao trabalho pelo médico da Previdência Social.
Durante certo tempo tentei descrever a sensação de ter perdido a si mesmo, de se ter um buraco negro dentro d’alma. Eu que gosto tanto de palavras fiz um esforço para que alguma coubesse em minha Ausência. Esmiucei o dicionário, acabei com o estoque de adjetivos para tentar qualificar meus sentimentos, nenhum vocábulo foi suficiente para descrever meu estado. A dor que eu sentia era inominável!
Todos os dias eu ia trabalhar usando o metrô, e era na espera pelo trem que a ideia de morte batia mais forte. Ouvia uma voz que dizia: “Vai, se joga na frente do trem, será rápido e indolor, é morte instantânea, acaba de uma vez com essa dor.”.
Era uma tortura. Todos os dias enquanto aguardava o trem, essas palavras se repetiam na minha cabeça. Dia após dia, Vida e Morte travavam uma guerra no meu íntimo.
Mas todos os dias a Vida ganhava, o Espirito Santo me lembrava de todas as vezes que vi a Morte face a face, e uma voz dizia: “Você sobreviveu até aqui, escapou várias vezes, tem uma razão para continuar vivendo, você tem uma missão a cumprir, Ele te chamou, continue lutando.”.
Pensava em Cristo, na minha salvação espiritual e quem sabe a salvação física fazia parte também? Por que não morri no acidente? Por que não morri das outras vezes que minha vida ficou por um fio? Deve haver uma razão para ter sobrevivido. E se realmente não é minha hora? E se mais uma vez eu sobreviver?
Cheguei à conclusão definitiva que não sou dona de mim. Minha vida não me pertence. O Senhor a comprou com Seu sacrifício na Cruz. É Ele quem decide quando e como partirei. Não devo, não posso e não quero ir contra o Dono da minha vida.
Por que eu não me mato?
Sei que meu Redentor vive e a esperança é a âncora da minha alma.
Sei principalmente que não existe vida fora da Palavra.

P.S: aos que sofrem com dores da alma, aos que pensam em não mais viver: continue lutando! Sua vida vale muito mais do que imagina.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fraturas


Na infância é um pouco comum uma criança cair e quebrar o braço, entre uma brincadeira e outra. No final das contas há criança que se diverte com aquele gesso sendo rabiscados pelos amigos.
Já quebrei alguns ossos, e aprendi que osso quebrado é para sempre. Mesmo voltando ao lugar, mesmo colando, mesmo com muita fisioterapia, ele continua quebrado. Não há nada que faça voltar como era antes, é como a porcelana, podemos colar, mas a marca da quebra fica. No caso do osso, a marca é invisível a olho nu, uma radiografia nos mostra a cicatriz.
Com criança é diferente (ouvi dizer), o osso “cola” rapidamente e normalmente se regenera sem cicatriz, pois está em desenvolvimento. No sei como é isso, quebrei meus ossos quando já era adulta, azar o meu.
Aparentemente ninguém diz que fui quebrada. Só eu sinto as marcas da fratura, de vez em quando uma fisgada, uma dificuldade em andar, são lembranças de algo que não deu certo. Precisei de muita fisioterapia.
Coisas imateriais também quebram, podemos “quebrar a cara” quando mergulhamos de forma intensa num relacionamento, quebramos a confiança quando não cumprimos a palavra dada, tantas coisas podem ser quebradas e doem, doem tanto quanto o osso, quando a quebra vem de alguém que amamos.
Quebrar relações significativas é uma das dores mais intensas, sangra, abre chagas profundas que demoram a se curar, algumas não curam nunca.
Assim como acontece com os ossos, as outras fraturas podem deixar marcas, a fisioterapia consiste no perdão, no reconhecimento de que todos somos pecadores, que as pessoas que amamos também são passíveis de erros irreversíveis. O perdão nos ajuda a tratar as feridas, olhar com misericórdia nossos erros (meu e do outro) nos faz mais compassivos e ajuda amenizar a dor.
Embora nem sempre seja possível curar todas as feridas, e as cicatrizes nos lembrem da dor vivenciada; ainda é possível viver, ter um propósito e deixar um legado.
Assim como meus ossos fraturados não me impedem de caminhar; as outras fraturas não me impedem de amar, perdoar, ter misericórdia e compaixão.
Que possamos estar em constante fisioterapia das coisas quebradas em nossas vidas.
Não deixe as “fraturas” empedrar o coração.
Um coração quebrantado está além das “fraturas”.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

Feita de barro



Gente limpinha demais fede
Gente que parece feita de cera
Sem o mínimo vestígio de barro
Eu prefiro gente sem cera
Gente de barro
Material do qual sou feita
Ainda sendo moldada
Sinto os dedos do Oleiro todos os dias
De vez em quando amoleço e caio
O Oleiro pega os pedaços caídos
E volta a moldar
Às vezes esses ajuntamentos deixam marcas
O Oleiro trabalha nas cicatrizes também
Às vezes os pedaços caídos empedram, sou moída.
Tenho cheiro de barro
Possuo as impurezas do barro
Tenho gosto de barro
Sou feita de barro
Sou barro


sábado, 19 de agosto de 2017

“MEU CORPO, MINHAS REGRAS” (o retorno)


Esse é o segundo texto que escrevo sobre esse clichê, o primeiro você confere  aqui.
Expressão bastante conhecida, utilizada em demasia pelas ativistas do feminismo atual. A mensagem que desejam passar é de que a mulher deve ter soberania sobre o próprio corpo, seus desejos e vontades, a mulher não deve ser controlada por ninguém, nem pela sociedade, liberdade total.  Vestir o que quiser, ir onde e como quiser, liberdade sexual, entre outras coisas... Afinal "lugar de mulher é onde ela quiser".
Porém a ideia mais forte embutida nesse discurso de domínio do próprio corpo é o "direito" que toda mulher deve ter na decisão de matar ou não o próprio filho, enquanto ainda está em sua barriga.
Desconfio de que, quem costuma declarar tal frase com essa ideologia talvez não entenda perfeitamente o significado de "meu corpo", muito menos de "minhas regras". Talvez devesse conhecer melhor o que é análise do discurso.
Pra começar que nada nesta vida nos pertence, o "meu corpo" que não é meu, ou será cremado ou será enterrado e depois de certo tempo o "meu corpo" não mais existirá, só restará os ossos. (No meu caso o processo será bem rápido, já que carne/músculo quase não tenho mesmo).
E as "minhas regras"? Ah, quem dera "meu corpo" obedecesse "as minhas regras"!!!
Há dias em que eu realmente desejo que essa frase seja verdadeira, há dias em que "meu corpo" dá uns "olés" em mim, e nada dele obedecer as "minhas regras", independente do que eu faça.
Qualquer pessoa que tem/teve alguma limitação há de concordar que o "meu corpo" não segue a tal das "minhas regras".
Posso falar com propriedade pois já tive/tenho várias limitações.
Não precisa conhecimento de anatomia, biologia, fisiologia para chegar a conclusão de que não temos domínio do próprio corpo. Pergunte para alguém com alguma limitação física, com diabetes, doenças autoimunes, alguém que já ficou internado, que passou pela UTI, que sofreu infarto, ataques de pânico, asma... Enfim, são tantas as situações que se conclui que essa história de "meu corpo, minhas regras" só serve mesmo para o ativismo feminino e como desculpa para matar bebês inocentes.

Não caia​ em "clichês" pós-modernos. Questione. Pense.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Feminazi


Sei que parece óbvio que o termo “feminazi” é a junção de feminismo + nazismo. O que não parece tão obvio é o motivo da ligação entre esses movimentos.
Em minha última publicação Análise do discurso falei entre outras coisas sobre o eufemismo na representação de ideologias.
A eugenia foi uma ideologia forte no século XIX e início do século XX, e foi o alicerce do movimento nazista. 
Atualmente a ideologia feminista é bem marcante e tem como base o movimento pró-aborto/escolha.
Alguns eufemismos para assassinato de bebês e eugenia: planejamento familiar, controle demográfico /populacional e controle da natalidade.
Esses termos são usados para definir politicas públicas para controlar o crescimento da população e frear a reprodução.
Uma das coisas mais difíceis para eu aceitar quando comecei minhas pesquisas sobre aborto foi o fato de ter pessoas e entidades dedicadas ao controle populacional de forma intensa, resultando em genocídio.
Muitas dessas entidades estão ligadas ao governo que infelizmente financia o aborto e a esterilização.
É de conhecimento público a intenção de Adolf Hitler limitar a população mundial e formar uma nação pura. 
Margaret Sanger fundadora da maior empresa de abortos dos EUA, a Planned Parenthood, apoiou abertamente o plano nazista para a engenharia genética da população alemã, defendia publicamente a eliminação de "ervas daninhas humana” e a "purificação da sociedade”.
 M. Sanger também organizou o "Projeto de Negro", um programa destinado a eliminar os membros que ela acreditava ser uma "raça inferior". Dizia que os negros se reproduzem de forma descuidada e desastrosa, gerando assim o aumento da população negra. Considerava que os brancos são mais inteligentes e aptos, devendo ser a maioria.
O termo genocídio é muito associado ao nazismo. Quantas vezes você já foi informado de que Adolf Hitler matou 6 milhões de judeus no Holocausto?  Mas porque a morte de 7 milhões de bebês ninguém chama de genocídio?
Bem, creio que ficou clara a ligação entre aborto/feminismo com a eugenia/nazismo. Margaret Sanger é a versão feminina de Hitler e o feminismo é a versão contemporânea do nazismo. Um matava judeu, a outra (ainda) mata bebês. Resumindo, apoiar o aborto é apoiar indiretamente a eugenia/racismo/nazismo.
Talvez exista alguma vertente do movimento feminista que não seja favorável ao aborto, ainda não conheço.


P.S: Você pode não concordar com esse artigo, é um direito seu. Mas recomendo que pesquise sobre as informações listadas antes de cair na tentação de refutá-lo. Mesmo porque não vou entrar em debates.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Despersonalização


Após um grave acidente sofri um autoexílio, fiquei ausente de mim.
Uma forte sensação de não me pertencer se instaurou desde os primeiros dias. Minha mente esqueceu quem eu era. Mesmo após a recuperação física, vivia no automático; trabalhava, estudava, me relacionava, mas era como se não fosse eu que estivesse ali, estava assistindo a minha própria vida. Não conseguia falar sobre isso com ninguém, Como falar de algo que eu não conseguia nomear, identificar?
Durante certo tempo tentei descrever a sensação de ter perdido a mim mesmo. Eu que gosto tanto de palavras fiz um esforço para que alguma coubesse em minha Ausência. Esmiucei o dicionário, acabei com o estoque de adjetivos para tentar qualificar meus sentimentos, nenhum vocábulo foi suficiente para descrever meu estado, de uma condição que me fez estranha de mim mesmo, uma ausência desesperadora do meu eu.
Como se tudo que estivesse acontecendo fosse com outra pessoa e eu estava apenas assistindo. Eu tinha sido arrancada da minha vida, da minha história. Eu era uma espectadora/observadora da minha própria vida, fora da realidade. Era como uma sonâmbula diariamente, mas não apresentava mudanças significativas, por isso a despersonalização passou sem ser notada por todos que me rodeavam.

♪ ♫ ♩ ♫     Restitui, eu quero de volta o que é meu    ♪ ♫ ♩ ♫
  ♫ ♩ ♫  ♪   Sara-me e põe teu azeite em minha dor     ♫ ♩ ♫  ♪

Ciente do meu estado, durante um ano fiz uma pasta para anotar minha vida, como se fosse uma agenda com acontecimentos pessoais e do mundo. Escrevi na primeira página: “O ano que não existi”, e lá coloquei as coisas significativas que me aconteciam e também noticias do mundo. Eu tinha a sensação de não lembrar das coisas, pois eu não me apropriava dos acontecimentos. Tinha consciência que estava vivendo algo surreal e queria ter lembranças quando voltasse a si.
Ainda não sabia o que estava de fato acontecendo, mas sabia que era efeito do trauma do acidente. Sem saber que era uma doença, considerei como temporário, que voltaria ao normal, não procurei tratamento, nem médico nenhum.
Permaneci nesse estado durante um ano e meio, a cura veio de forma gradual, sem tratamentos, e um dia percebi que essa ausência de mim e da minha realidade havia se dissipado. Milagre? Não sei, mas voltei a ser eu mesmo, voltei para minha vida.
Após 4 anos, em um tratamento médico, relatando tudo o que vivi desde o acidente, recebi o diagnóstico: síndrome de despersonalização/desrealização.
Apesar de já curada, fui procurar informações, descobri que se encaixava exatamente na minha experiência. Como nunca tinha ouvido falar nisso? Simples, a gente só se interessa por algo quando faz parte da nossa experiência de vida.
Li relatos de pessoas com a doença e soube de filmes que tratavam do assunto. Apesar de pouco popular, essa doença já atingiu muitas pessoas.
Resolvi contar minha experiência para torná-la mais conhecida, quem sabe assim as pessoas possam identificar e lidar com ela de uma forma melhor. 
O meu caso não foi grave (foi consequência do estresse pós-traumático), li relatos de pessoas que convivem com a despersonalização durante muitos anos. Felizmente fui curada e superei complemente a doença.
Deixo abaixo algumas informações básicas:

Síndrome de despersonalização ou desrealização

Nas áreas da psiquiatria e da psicologia, a despersonalização (CID-9/10) é entendida como uma desordem dissociativa, caracterizada por experiências de sentimentos de irrealidade, de ruptura com a personalidade, processos amnésicos e apatia. Pode ser um sintoma de outras desordens como transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, depressão, esquizofrenia, estresse pós-traumático e ataques de pânico. A despersonalização pode ainda surgir com o consumo de drogas, como Cannabis ou Ecstasy; mas há outras causas: esta pode desenvolver-se devido a uma exposição prolongada a estresse, mudanças repentinas no contexto pessoal, laboral ou social, entre outros fatores. A despersonalização encontra-se intimamente relacionada com a ansiedade. Enquanto desordem isolada, é desencadeada pela vivência de uma situação traumática, como maus tratos (de natureza física ou psicológica), acidentes, desastres. Esta pode ainda despoletar-se no indivíduo se este atravessar um conflito interno insuportável: a mente passa por um processo inconsciente de dissociação - separa (dissocia) conhecimento, informações ou sentimentos incompatíveis ou inaceitáveis oriundos do pensamento (realidade) consciente. Foi descrita pela primeira vez pelo psiquiatra francês Ludovic Dugas.
De acordo com a última edição da DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) a despersonalização surge como uma desordem dissociativa: As características essenciais do Transtorno de Despersonalização consistem de episódios persistentes ou recorrentes de despersonalização, caracterizados por um sentimento de distanciamento ou estranhamento de si próprio. O indivíduo pode sentir-se como um autômato ou como se estivesse em um sonho ou em um filme. Pode haver uma sensação de ser um observador externo dos próprios processos mentais, do próprio corpo ou de partes do próprio corpo. (Fonte: Wikipédia)

Escrevi o texto abaixo antes de conhecer a doença:
https://marciapinho.blogspot.com.br/2013/10/exilio.html