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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Preciso escrever


 


Falo pouco

Penso muito

Sinto em demasia

Há tanto para dizer!

Faltam-me vocábulos

Como comunicar?

Se as palavras foram corrompidas?

E a verdade deturpada?

A quem comunicar?

Ainda que não haja leitores,

é preciso escrever.

Preciso escrever!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Língua

 

Namoro Gramáticas
Flerto com o Latim
Paquero Dicionários
Dou uns amassos na Etimologia
Aturo sogras como a dona Norma

Ela faz de mim gato e sapato
Deixo-me envolver por Gírias,
Misturo idiomas de forma tosca.
Uso expressões arcaicas, populares,
Pratico o neologismo,
Escorrego nas regências e concordâncias
Faço quase tudo com e por Ela
Sou capaz até de usar mesóclise.
Menos frequentar a CracoLíngua.
Ah, isso não!
Lá tem várias drogas,
E a Novílíngua, que pode até matar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Carolina e o milagre da multiplicação

 


Carolina Maria de Jesus foi uma escritora, compositora e poetisa brasileira, conhecida por seu livro "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada" publicado em 1960. Foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes do país.

Apesar de “Quarto de Despejo” ser a obra mais conhecida, Carolina tem diversos outros livros, tanto em prosa como poesia. Além de músicas de sua própria autoria.

Obras Escritas: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), Casa de Alvenaria (1961): Diário de uma ex-Favelada. Pedaços de Fome (1963). Provérbios (1963)

Obras Escritas (Póstumas): Diário de Bitita (1977), Um Brasil para Brasileiros (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014), Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos (2018).

Obra fonográfica: Quarto de despejo (1961) RCA .

Como atriz: atuou no documentário alemão: “Favela: a vida na pobreza” (1971)

Por ter uma obra tão rica, que retrata a luta de tantos brasileiros de forma sensível e inteligente, Carolina foi tema de outras obras, no cinema, TV e literatura.

No ano seguinte ao lançamento de Quarto de Despejo, 1961, Carolina teve seu livro adaptado para o teatro. A peça "Quarto de despejo" estreou no dia 27 de abril de 1961, no Teatro Bela Vista, em São Paulo. Ruth de Souza representou o papel de Carolina.

O sucesso de Quarto de despejo, o livro, motivou Quarto de despejo, o disco, no mesmo ano da peça. A escritora mineira Carolina Maria de Jesus, gravou pela RCA, músicas que ela mesma compôs. O raro LP pertence ao Acervo José Ramos Tinhorão, sob a guarda do IMS.

Em 1971, a alemã Christa Gottman-Elter dirigiu o documentário Favela - Das Leben in Armut (Favela, a vida na pobreza). A exibição desse documentário no Brasil teria sido vetada pelo então embaixador brasileiro em Berlim. O Instituto Moreira Salles, adquiriu uma cópia do filme, restaurou e legendou. Foi exibido pela primeira vez no Brasil, por ocasião do centenário de nascimento da escritora, em 14 de março de 2014

Em 1983, foi ao ar o Caso Verdade "Quarto de despejo - de catadora de papéis à escritora famosa", exibido em março, pela Rede Globo.

Em 2003, tivemos o documentário Carolina, com Zezé Mota. O filme recebeu o prêmio de melhor curta documentário no Festival de Cinema de Gramado.

Em 2014 é lançado o documentário “Vidas de Carolina”, dirigido por Jéssica Queiroz Contemplado pela sétima edição prêmio Criando Asas, Vidas de Carolina conta a história de duas mulheres que sobrevivem da coleta de resíduos recicláveis. O documentário foi inspirado na vida da Carolina. Relatos de familiares da escritora e trechos do livro “Quarto de Despejo” conectam as três historias.

Em 2019 o Sesc São Paulo apresentou a peça “Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus”. O monólogo conduzido ora em primeira pessoa ora em terceira, ressalta a imagem de Carolina como uma pessoa que compreendia profundamente as questões políticas e sociais de sua época.

A obra de Carolina caiu no gosto popular da nova geração e tem sido lançado diversas biografias em diferentes formatos.

Carolina: uma biografia (2018) de Tom Farias é a mais recente. Há também biografias em quadrinhos tanto para o público adulto quanto para o infantil.

Carolina virou marca, grife. Seu rosto estampa camisetas, canecas, almofadas etc. Podemos encontrar inúmeros trabalhos acadêmicos baseados em sua vida e obra.

Para o Carnaval de 2021, a escola de samba Colorado do Brás, do Grupo Especial de São Paulo, terá como tema a história de Carolina de Jesus. O enredo é assinado pelo carnavalesco André Machado e tem o título Carolina: A Cinderela Negra do Canindé.

Provavelmente Carolina não imaginava os desdobramentos de sua primeira obra. Como um livro se transforma em música, peça de teatro, documentário, programa de TV e quadrinhos?

A autobiografia de Carolina de Jesus deu origem a outras obras, em outras linguagens. A literatura tem um bom diálogo com as outras artes. E podemos fazer uso desse diálogo para enriquecer a cultura, expandir uma obra literária, fomentar outras expressões artísticas e propor novos diálogos.

Questões:

Como todas essas obras dialogam?

Qual a relação da história pessoal da Carolina com a História? E com a nossa história pessoal? E com a história atual?

Podemos identificar bem os acontecimentos históricos no tempo e espaço/local lendo a obra? E também no acesso as suas múltiplas adaptações/releituras?

O que todas essas obras têm em comum, além da história pessoal da Carolina?

É possível identificar na obra escrita as inspirações para a obra fonográfica?

O que fez de “Quarto de despejo” um sucesso?

Você acha que sua história pessoal renderia uma boa obra?


sábado, 18 de maio de 2019

Escrever é sangrar.


Tenho pensado como a democratização da escrita tornou a atividade banal e pouco valorizada, situação agravada com as redes sociais. Hoje em dia, qualquer um pode se dizer escritor. Inclusive há diversos escritores/poetas de rede social que tem livros publicados.
Por azar, temos leitores com pouca habilidade para discernir o que é "isto ou aquilo". A deficiência na educação e cultura gerou leitores anoréxicos, não conseguem avaliar uma obra literária fruto de "inspiração e transpiração" daquela fortuita. Também o hábito de leitura mudou, lê se mais, porém a qualidade dos textos tem piorado.
A arte da escrita está banalizada, é um fato, prova disso são os inúmeros livros de (sub) celebridades que nada têm a dizer e enchem as páginas com clichês ultrapassados e besteirol. Eles têm como aliados além das redes sociais, os programas de TV e a fama, mas talento literário de fato está escasso. Para comprovar o que digo basta visitar uma livraria e observar a seção "lançamentos" e a de "mais vendidos".
São livros rasos, que visam o lucro e mais fama, conteúdos superficiais para gente superficial. Essa geração mimada da sociedade líquida ainda não entende que uma boa escrita é feito de sangue, suor e lágrimas.
 Escrever é sangrar.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Singularidade



Não quero ser outra
Não quero... 
Ser a próxima Nancy Pearcey na teologia.
Nem fazer poesia à la Adélia Prado
Ou ser filósofa tal Hannah Arendt
Não desejo escrever romances como Jane Austen
Não quero ser outra Flannery O'Connor
Não quero ser mais uma Carolina de Jesus
Não tenho pretensão alguma de alcançar essas mulheres incríveis.
Quero ser apenas eu
Ser citada sem comparações
Ser a Márcia Pinho

terça-feira, 29 de maio de 2018

A menina que doava livros



Era uma vez uma menina que amava livros.
Ela amava ler, e lia tudo que aparecia pela frente.
A menina lia não só livros, mas também revistas, panfletos, bula de remédio, manual de instruções, placas e faixas na rua.
Quando ia a algum lugar que tinha livros, ficava olhando, decorando o nome do livro e do autor, assim podia pesquisar depois.
Quando visitava alguém, sempre olhava a biblioteca para saber quais livros conhecia e principalmente quais livros ela ainda não conhecia.
Anotava o que não conhecia para ler depois.
Ela frequentava a biblioteca da escola e também a biblioteca da cidade.
Sempre anotava os livros que queria ler.
A menina achava que um dia conseguiria ler todos os livros que queria.
As anotações se tornaram bemmmm grandes, então parou de anotar.
O tempo foi passando e a lista dos livros que queria ler cresceu tanto que ela não conseguia mais imaginar como leria tudo.
Ela entrava na biblioteca e pensava "será que um dia vou ter uma biblioteca assim?”.
Ela queria ter muitos livros. Seu sonho era ter uma imensa biblioteca particular.
Conforme foi crescendo, percebeu que nem todos amavam a leitura como ela, havia pessoas que não liam e não tinham livros.
Também descobriu que havia pessoas que queriam ler, mas não tinham livros e não conheciam os livros como ela conhecia.
Foi então que teve uma ideia: 
"Se eu der meus livros antigos, aqueles já li para pessoas que não tem?"
Ela percebeu que tinha livros guardados que só ocupam espaço.
Ela sabia que aqueles livros não seriam mais lidos e não teriam utilidade na estante.
Aos poucos, ela começou a doar alguns livros.
Primeiro, oferecia para suas amigas da escola e do bairro.
"Maria você gostaria de ler esse livro? Eu já li, é muito legal, você vai gostar."
E assim, a menina começou, primeiro com os amigos mais próximos.
Depois, aproveitava toda conversa com as pessoas para falar sobre livros e assim que tinha oportunidade, ela falava:
"Você já leu esse livro? É muito legal, eu já li, acho que você vai gostar”.
Toda conversa, terminava em livros, e quase todo papo sobre livros terminava em doação.
Nem todos aceitavam seus livros. Que pena!
A menina cresceu, seu amor por livros também.
Só a sua biblioteca que não crescia.
Ela nunca chegou perto de ter uma grande biblioteca como imaginou quando era pequena.
Ela sempre comprava e ganhava livros, mas os livros depois de um tempo sempre iam embora.
Ela dizia: “Não é justo eu ter um monte de livros e ter gente que não tem.”
Todos que a conheciam já sabiam de cor.
"Livros foram feitos para serem lidos!"
Ela não entendia a razão de pessoas usarem livros como decoração, só de enfeite.
Quando alguém que ela conhecia se mostrava interessado em algum livro, corria para sua biblioteca ver se tinha para doar.
Ela doava livros usados e novos, para amigos, conhecidos e também estranhos.
O importante era fazer com que os livros fossem lidos, isto é, cumprissem seu propósito.
Ela amava tanto os livros que queria que todos também tivessem.
Ao contrário de gente que diz que não doa porque ama.
"Ora, o amor não é doador?"
Ela acreditava que as Letras transformam e a Palavra liberta.
A leitura sempre será a cura para muitos males.
A menina passou o resto de sua vida doando livros.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Era uma vez ... sem final feliz



Era uma vez...
Uma garotinha triste e introvertida.
Ela não tinha uma boa autoestima.
Ouvia coisas dos adultos que crianças não deveriam ouvir.
Adultos faziam com ela coisas que não eram para se fazer com crianças.
Ela não tinha amigos.
Só um caderninho pra desabafar suas tristezas.
A garotinha cresceu, virou uma mocinha.
A mocinha não se achava bonita, não chamava a atenção dos garotos.
Ela tinha cabelo pixaim e usava óculos.
A mocinha era extremamente insegura.
Ela também tinha um caderninho para escrever suas crises existenciais.
A mocinha virou uma jovem.
A jovem estudava e trabalhava.
Mas também se divertia com os amigos que fez.
A jovem namorava.
Recebia o amor que pensava merecer.
Relações tóxicas.
Quase se envenenou.
Se não fosse o caderninho!
Ela colocava o veneno pra fora.
Vomitava as dores em forma de palavras.
A jovem se tornou mulher.
Essa mulher ainda abrigava a garotinha triste e introvertida.
Mas aprendeu a disfarçar.
A mulher era insegura como a mocinha.
Ainda não aprendeu a ser amada.
Algumas vezes aceita veneno com rótulo de amor, igual a jovem.
A mulher tem um caderninho para escrever.
E um blog para publicar tudo o que não cabe em si.
Ela deseja que esse caderninho/blog vire um livro.
Ela acredita em final feliz.
O final feliz dela não é aqui.
O final feliz dessa história está em outro Livro.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Soberba literária: eis a questão!




Por volta dos 13 anos de idade tive o primeiro contato com os textos de William Shakespeare. Tinha um primo que estudava teatro e eu passava alguns dias das férias na casa dele. Havia uma coleção de livros bonitos, vermelhos, uns 20 em média, todos iguais, no mesmo tamanho (altura) de capa dura na estante. Assim que vi fiquei interessada, coleções sempre chamam a atenção numa estante.
Eu não sabia quem era Shakespeare, simplesmente os livros estavam a minha disposição.
Gostei do Will logo de cara, acho impossível alguém não gostar dele.
Aos 20 e poucos anos, já conhecendo a importância do autor, tagarelava minha façanha vez ou outra: "Li Shakespeare na adolescência.”.
A verdade é que fui uma privilegiada, aos 20 anos conhecia Shakespeare, Machado e mais um pouco de boa literatura.
Livro é artigo de luxo, no sentido monetário, social e intelectual.
(Obs.: Acredito sim que há bons livros e outros nem tanto).
A soberba me picou, de tempos em tempos contava das minhas “altas” experiências literárias.
Isso demorou um bom tempo para passar. Até o dia em que alguém me disse:
 “Você não leu Shakespeare, você leu uma tradução de Shakespeare”.
Talvez você esteja se perguntando: "Mas não é a mesma coisa? O conteúdo é o mesmo.”.
Não, não é a mesma coisa, até o fim do artigo espero que compreenda.
Então eu entendi uma série de coisas.
* Ler por ler, ler só para aumentar a lista de leitura, ler para se encher de conhecimento, ler para mostrar ou postar nas redes sociais... Tudo isso é pura vaidade, vazio.
* Se ler muito e ler bons livros te faz soberbo, melhor continuar inculto. Não ter bom conhecimento literário é ruim, mas não é pecado.
* Ler muito e ler bons livros pode te fazer desprezar outras leituras excelentes, só porque não consta na lista de "bons livros".
* Há diversos tipos de leituras e você não precisa menosprezar uma em detrimento da outra.
* Ler para alimentar a alma, ler para se divertir, ler para se informar, ler por obrigação. Todas as leituras podem conviver e também convergir.
* Uma leitura leva à outra. Todo autor bebe de alguma fonte, a partir de uma obra você acaba conhecendo outras. Todo obra tem referências (diretas ou indiretas). Não existe obra totalmente original (pelo menos eu desconheço). Até mesmo a Bíblia teve "inspiração". (Não, não vou entrar na questão).
* Se o seu conhecimento literário (ou qualquer outro) não te faz uma pessoa melhor, se as suas leituras não servem ao próximo, pare!
* Ler adaptações, traduções e outros tipos de leituras "não originais", tem seu valor, dependendo do contexto. Eu não teria conhecido Shakespeare sem tradução.
O último ponto me faz valorizar a tradução e também o trabalho de muitos escritores que compilam/mastigam obras inacessíveis ou temas complexos e tornam acessíveis.
Algumas coisas ficariam difíceis se tivéssemos que ler/pesquisar diretamente da fonte original.
Ao mesmo tempo, esse último ponto também me diz que não tenho que me ensoberbecer por ter lido Shakespeare tão cedo. Na verdade não li Shakespeare cedo, eu o conheci. Isso faz muita diferença.
Ler Shakespeare significa ler em inglês, conhecer outro idioma. E se você ainda acha que não faz diferença ler em português ou em inglês, as obras originais do Will são em inglês arcaico e não em inglês Netflix.
Para terminar, Willian Shakespeare inventou milhares de palavras e causou mudanças na linguagem.
Ler Will no original significa não só conhecer outro idioma, mas também conhecer o inglês arcaico e a mudança linguística e de pensamento no decorrer dos tempos.
Não há motivo nenhum para se gabar de ler uma tradução (a obra mastigada) de Shakespeare.
Sou grata pelas oportunidades que tive, por tudo que conheci até hoje e ainda mais grata por saber que tudo o que conheci não significa nada comparado àquilo que não conheço.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A princesa flutuante




O livro “A princesa flutuante” é um conto de fadas, você o encontra no departamento infantil das livrarias, mas não se engane. Não é um livro (só) para crianças. É um daqueles que atravessa gerações, pois fala sobre amadurecimento, amor, superação de obstáculos, entre outras coisas comuns a todos. Como o próprio título sugere, nesse conto temos uma princesa que flutua ao invés de andar. Por causa de uma maldição que recebe em seu batismo ela se torna imune à “gravidade”. A palavra “gravidade” tem duplo sentido nessa história, gravidade física e emocional. Para desespero dos pais a princesa não consegue levar nada a sério, está sempre rindo e flutuando. Um dia, ela descobre que a água a torna igual às outras pessoas. O encanto perde o poder (somente) quando está dentro da água, com isso a princesa passa cada vez mais tempo nadando no lago próximo ao palácio.
Mas a autora da maldição não se conforma em ver uma falha no feitiço ver a princesa feliz. A bruxa faz outro feitiço para que o lago seque por completo. Então o lago começa a secar e a princesa a definhar. Logo o rei trata de procurar uma solução para o problema.
A única forma de reverter o feitiço é um sacrifício voluntário.
Sacrifício voluntário? Isso me é familiar...
Alguém teria que morrer para quebrar o feitiço e o lago não secar.
Não vou contar como é esse sacrifício, como é feito e quem é o voluntário para que você leia e se encante com essa história, assim como eu.

A editora disponibilizou algumas páginas de degustação nesse link:


Vou confessar que só me interessei em ler esse conto de fadas por causa do autor.
George MacDonald nasceu na Escócia, em 1824. Estudou para ser pastor, mas abandonou a carreira, tornando-se professor e escritor. Sua vasta obra, de contos de fadas e romances de fantasia, inspirou outros grandes nomes da literatura. Foi mentor de Lewis Carroll, incentivando-o a publicar Alice no País das Maravilhas. Tolkien, Mark Twain e C. S. Lewis também foram inspirados por ele.
A primeira publicação de “A princesa flutuante” foi em 1864. Para saber mais do autor segue o blog:



Capa do livro






  



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Linguagem e Ideologia



Muito tem se falado sobre o movimento politicamente correto que engloba a linguagem como uma das principais ferramentas ideológicas. Na contramão do politicamente correto há publicações de livros; uma coleção inteira de guias politicamente incorretos (da filosofia, do rock, do sexo, da história etc.), programa de televisão, filme entre outras coisas. A Secretaria de Direitos Humanos lançou em 2004 a cartilha “Politicamente Correto & Direitos Humanos”. [1] O governo oficializou o que já estava em ação no movimento. Afinal o que é o politicamente correto? Segundo Maria Helena de Moura Neves [2]

O “politicamente correto” é, atualmente, bandeira que se levanta para interpretar atos do dia a dia, numa onda de patrulhamento que tem presença notável na sociedade, com dupla influência e significação: bem-intencionada que é, cria a impossibilidade de qualquer refutação, parecendo intolerável que seja condenada, ou que seja sequer questionada; por outro lado, mal inserida nas mais diversas atividades, como indiscriminadamente vem sendo, é tão intolerável quanto as próprias incorreções políticas. [3]

Como amante das Letras, andei refletindo sobre a dupla face da atual linguagem. O ser humano se distingue dos animais pela linguagem/pensamento, que são duas faces de uma mesma moeda. Segundo o estudioso da linguagem Lev Vygotsky (1896-1934): “O pensamento não apenas se expressa em palavras; ele adquire existência através delas”.[4] Portanto é por meio das palavras que o ser humano pensa e articula ideias.

“A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo. (…) Ninguém pode pensar sem palavras.” [5]  (Friedrich Schleiermacher)

Existem diversas obras no campo linguístico que dissertam sobre a relação linguagem e formação de ideias. Para evidenciar tal afirmativa registro mais uma.

[…] A linguagem como elemento de mediação necessária entre o homem e sua realidade e como forma de engajá-lo na própria realidade, é lugar de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade, uma vez que os processos que a constituem são histórico-sociais. [6]

A semântica tem papel fundamental nesse processo de linguagem-pensamento. Semântica é um ramo da Linguística que estuda o significado das palavras, frases e textos de uma língua.  E o que a semântica tem a ver com o politicamente correto? Os ideólogos do movimento fazem uma espécie de “blindagem semântica”, isto é, envolve significados em palavras/expressões que de certa forma retiram ou diminuem seu verdadeiro sentido, alterando não só a linguagem como também os pensamentos respectivos.
O movimento politicamente correto que domina a mídia e as redes sociais, muitas vezes distorcem os fatos, amenizam erros, simplificam o complexo, e nos fazem engolir o que não é aceitável. Além disso, pode ser usada para manipulação interpessoal com objetivo de acobertar realidade ou coagir comportamentos, é uma espécie de patrulha da linguagem/pensamento. Como diz Fiorin: “O discurso é, pois, o lugar das coerções sociais”.[7]
Como é feito essa patrulha/coerção? Justamente pela linguagem, de forma tão sutil que é imperceptível à grande massa. Aos poucos, jornais, revistas, programas de TV, novelas e músicas têm trocado palavras/expressões comuns do dia a dia pela cartilha não oficial do politicamente correto. Em todos os lugares lemos frases de efeito, jargões, clichês que não significam nada, são vazios de sentido, porém amplamente divulgados. As pessoas reproduzem sem conhecer de fato seus significados, uma forma de emburrecimento sutil e crescente em larga escala.
Há tempos não ouço/leio mais a palavra aleijado, agora é deficiente físico. A cartilha oficial está repleta de palavras/expressões que foram substituídas. Alguns termos foram eufemizados, outros foram reformulados (ex: sapatão por lésbica) e há palavras que foram expulsas do vocabulário, alguns termos são proibidos socialmente.
No movimento politicamente correto um dos recursos mais usados é o eufemismo, uma figura de linguagem que tem o objetivo de suavizar uma palavra ou expressão que possa ser rude ou desagradável. Consiste na troca de termos ou expressões que possam ofender alguém por outras mais suaves, seja por serem indelicadas ou grosseiras.
Ex: “O vizinho partiu dessa para melhor.” (Forma branda de comunicar a morte/falecimento).

Outro recurso usado é a linguagem técnica/profissional, uma linguagem especifica de alguma área profissional (ex: jurídica, médica etc.). Essa linguagem pode ser utilizada no exercício de suas atividades profissionais, em conversas com leigos no intuito de esclarecer/ confundir o ouvinte, ou ainda usada de forma falaciosa como argumento de autoridade (bastante utilizada por meios de comunicação em massa).

Exemplo: Apresentora de TV diz “Vamos chamar o Dr. Bráulio Balela para falar sobre aborto”.

Parece-lhe familiar? Em contra partida há expressões/termos que não são pejorativo-ofensivos, no entanto tornaram-se indesejáveis por uma questão ideológica. Há ainda outras palavras que mudaram de significado para atender a agenda do movimento. Vamos aos exemplos. A palavra denegrir na cartilha do governo:

“Denegrir ou denigrir – Esse verbo, com o sentido de aviltar, diminuir a pureza, conspurcar, tornou-se ofensivo aos negros e, por essa razão, deve ser evitado.” [8]

Para o movimento negro/afrodescendente tal palavra é inaceitável. No entanto ao pesquisar a origem, histórico e uso no decorrer de diversos contextos é possível concluir que a palavra “denegrir” não é referência para o racismo.
E o que dizer das palavras “fascista” e “nazista” que lamentavelmente foram tão banalizadas, distorcidas, modificadas?
Enfim, há uma série de fatores para considerar quando analisamos a linguagem de uma comunidade.

Gostaria com esse artigo de alertar sobre o uso de palavras; não se enganem, não existe neutralidade na linguagem, consciente ou não, o que você diz revela o que pensa.

 Referências Bibliográficas

[2] Livre-docente pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Professora da UNESP-Araraquara e da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq). E-mail: mhmneves@uol.com.br
[4] Vygotsky, Lev. A Construção do Pensamento e da Linguagem. Ed. Martins Fontes. 2000
[5]  BRAIDA, Celso R.  Filosofia E Linguagem.  Clube de Autores. 2013
[6] BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. Editora Unicamp. 2004
[7] FIORIN,  José Luiz  . Linguagem e Ideologia (Série Princípios). Editora Ática. 2005


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Teologia do autoconhecimento



Conheci a expressão “Teologia do autoconhecimento”[i] no livro Inteligência Humilhada, onde o autor Jonas Madureira dedica um capítulo para tratar desse assunto.
O autoconhecimento é essencial para o “ser cristão”.  Muitos cristãos infelizmente menosprezam a psicologia, mas antes de ser uma ciência, a psicologia pura e simples é um encontro com Deus.
Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão). Psicologia poderia ser compreendida então como o "estudo da alma" ou a "compreensão da alma". [ii]
Como cristã creio que não existe melhor “compreensão da alma” do que “ver” Jesus Cristo. Sei que tal afirmação só pode ser compreendida por aqueles que “experimentaram” Deus em suas vidas. Não tenho a pretensão de ser compreendida por todos, e nem é possível.
Antes da minha conversão ao Cristianismo, me interessava por Psicologia, estudei por conta própria durante anos. Queria entender a razão de ser como era, queria saber o motivo de como certos eventos me afetavam, queria me conhecer. Também gostava de Filosofia, li Platão, Aristóteles e Sócrates; minha sede por autoconhecimento foi aumentando. A Psicologia e a Filosofia faziam um belo casal, eu acreditava que poderiam me dar as respostas que a religião não me dera anteriormente (frequentei a Igreja Católica na infância e adolescência).
Por conta dos dilemas existenciais e das feridas emocionais procurei psicoterapia, durante alguns anos foi benéfico. Cheguei a declarar que a Psicologia havia me salvado, e de fato naquela época foi uma solução paliativa, aliviou parte de meu sofrimento.
Mas o conhecimento do meu ser interior mesmo só chegou quando tive um “encontro pessoal com Deus”. (Algumas expressões só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que “nasceram de novo” pelo Espirito Santo). Em todo caso, tentarei explicar.
Segundo o reformador Calvino:

... O homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão Dele examine a si próprio. Ora, por causa do orgulho, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, íntegros, sábios, santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça e indignidade. [...] uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. [...] Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele, e quão completa a perfeição de sua justiça [...] Quando, pois, manifestando Ele sua glória, caímos de tão abalados, prostrados como pelo pavor da morte, e quase aniquilados, conclui-se que o homem não é jamais afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.[i]



Nomeio esse pensamento de Calvino de “teoria do espelho reverso”. O espelho é um objeto que reflete a nossa própria imagem. Num encontro com Deus, Ele é o espelho reverso. De frente ao Espelho não se vê de imediato a própria imagem, mas sim a imagem de Deus. Vemos toda a sua Glória, Majestade, Soberania e Santidade. Esses atributos espelham em nós e revelam a nossa imagem, uma espécie de bate e volta. Eu vejo Deus e sua imagem reflete/revela a minha própria imagem. Então nesse momento, em frente ao Espelho eu vejo duas imagens simultaneamente, a Santidade de Deus e a minha miséria, de forma proporcional. Deus é tão santo, quanto eu sou miserável pecador. Só reconhecemos a medida de nossa pecaminosidade diante da Santidade Dele.
É desse momento em diante que começa a santificação, um processo que ocorre após me enxergar através Dele e conhecer o mal que habita em mim. Saber quem sou eu e quem é Deus fez com que eu buscasse a santidade, ao me conhecer de fato e conhecê-Lo, o desejo de não ser mais quem sou e sim me tornar mais parecida com Ele, tomou conta do meu ser.
Em Crônicas de Nárnia, há uma alusão a esse processo:

Não vou contar como virei dragão, mas vou lhe dizer como deixei de ser dragão. (...) Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. [i]



Assim como Eustáquio/Dragão estamos em mutação, agora que sabemos que somos “dragão” deixamos que Ele, o Leão arranque nossas camadas. Permitimos ser feridos por Suas unhadas, uma ferida que dói e cura ao mesmo tempo. A cura acontece quando deixamos que Ele arranque nossa pecaminosidade, nossas falhas de caráter. Ah como dói abrir mão do nosso “eu”! Mas à medida que a pele (“eu”) é arrancada, nossa verdadeira identidade é recuperada (“imago dei”).
Agostinho de Hipona, o santo queridinho dessa que vos “fala”, sentiu essa ferida e deixou em seu “diário” o relato:

“Feriste-me o coração com a tua palavra, e desde então te amei.”[v]


Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[vi]

Para resumir:
“Sem o autoconhecimento não existe Cristianismo”. [vii]


Referências bibliográficas:




[i] MADUREIRA, JONAS, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017).

[iii]  CALVINO, JOÃO, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1 Edição clássica Cap. I: 1 p.47,48 (Paráfrase minha).

[iv] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia/A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 2009), p.450-1.

[v] AGOSTINHO, Confissões (São Paulo: Paulus, 1997). Livro X, 6:8

[vi] AGOSTINHO. Confissões (São Paulo: Paulus, 1997) Livro X, 27:38 (grifo meu).