quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Gemidos inexprimíveis


As cenas ainda permanecem em minha cabeça...
Junho de 2010. Saí de casa por volta das 6:30 h da manhã como de costume para trabalhar, meu trajeto incluía uma rodovia. Andava no corredor como todos os motociclistas, um carro saiu repentinamente de sua faixa para entrar na outra, não dava tempo de frear, tentei desviar, bati no veículo seguinte. Literalmente voei, fui jogada alguns metros adiante, o capacete saiu da minha cabeça, caí de costas no asfalto.
Estava no chão, literalmente quebrada, a reação automática foi tentar levantar, mas eu não conseguia me mexer. Um monte de pessoas falando comigo ao mesmo tempo, parecia que eu estava fora de mim. Poucos minutos depois o resgate chega, era o carro dos bombeiros, quando eles me pegaram para me colocar na maca, a dor foi tão intensa que nem consigo descrever, não conseguia falar, só dor, só gritos.
Chegando ao hospital, apaguei. Acordei oito horas mais tarde, na sala de cirurgia, olhei para o meu corpo e levei um susto, havia sido aberta e costurada. Entrei em estado de choque.
A partir desse momento as lembranças se embaralham bastante, a noção de tempo numa situação como essa é completamente diferente do tempo da vida normal. Um dia no hospital imobilizada, olhando para o teto equivale há muito mais que 24 horas, eu sentia muita dor o tempo todo.
Minha situação de saúde era a seguinte: estava com a bacia quebrada em dois pontos diferentes, uma lesão na coluna entre a lombar e a medular, um edema cerebral, diversas escoriações pelo corpo e o rosto todo machucado, inchado e roxo da pancada. A bacia quebrada parecia ser o que exigia mais cuidado, a lesão na coluna preocupava muito porque não se sabia exatamente qual era o ponto da lesão, se fosse só na lombar tudo bem, mas se a lesão também tivesse atingido a medula tinha certa probabilidade de paralisar os movimentos dos membros inferiores, em outras palavras, corria o risco de ficar paraplégica.
O edema cerebral era por causa da batida, que graças ao capacete não aconteceu nada mais grave, aliás, foi um milagre não sofrer danos sérios no cérebro (será mesmo?!). Porém esse edema cerebral me deixava com dores muito fortes na cabeça, não conseguia pensar. E o rosto? Bem, meu rosto estava desfigurado, o inchaço fez com que meus olhos sumissem, no lugar havia duas enormes “beterrabas”, nem dava para ver meus olhos, mas estava enxergando ainda, estar hoje com o rosto perfeito é mais um milagre na minha vida.
A bacia quebrada não me deixava mexer, afinal a bacia é o elo entre o tronco e os membros inferiores, então só mexia os olhos. A dor se tornou parte de mim, 24 horas por dia, até mesmo respirar doía. A dor era tão grande que não tinha forças para gritar ou chorar, conheci a expressão bíblica “gemidos inexprimíveis”.
Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.”
(Romanos 8. 26-28).
 Não dormi alguns dias, por mais que tentasse e quisesse, como adormecer com tanta dor?
“Ai de mim! [...] Estou exausto de tanto gemer, e não encontro descanso”. (Jeremias 45:3)
Pedia para as enfermeiras darem remédios pra passar a dor, eu já estava medicada era a resposta, mas porque a dor não passava? Os dias foram se passando e a dor não diminuía, estava ficando louca por não dormir. Um dia consegui conversar com o médico e falar sobre o fato de não dormir por causa das fortes dores. O médico me disse que a dor de cabeça era por causa do edema cerebral, uma espécie de inchaço no cérebro, e que esse inchaço diminuiria com o passar do tempo até sumir completamente, e que nesse caso remédio não faria efeito, o negócio era ter paciência e esperar passar, ele não poderia me dar remédio para dormir porque estava ainda em observação, estavam estudando meu caso e remédio para dormir não ajudaria o meu estado clínico. Que ótimo! Dormir era tudo o que eu mais queria, significava não sentir dor e por alguns momentos esquecer o que estava acontecendo, mas para meu desespero tive que ficar dias sentindo dor ininterruptamente. Não pensava sobre o acidente em si, ou sobre as consequências dele, eu realmente não tinha condições de pensar, estava tomada pelo desespero do sono e da dor.
Com os gemidos inexprimíveis aprendi que a vida é demasiadamente fugaz.
Que a cura, tanto física quanto emocional, é uma necessidade humana universal.
Que não tenho o controle de absolutamente nada nessa vida.
E que é humanizador enxergar a vida através das lentes do sofrimento.
Por fim, entendi que quando não podemos mais falar, quando a nossa dor é tão grande aponto de não conseguirmos expressá-la, Deus nos ouve.
Conforta-me saber que nas horas em que não temos como articular um pensamento, uma frase ou um grito, naqueles momentos em que não sabemos expressar nossas angustias, só Ele para ouvir nossos gemidos inexprimíveis.

Que podemos confiar na promessa da ação do Espírito Santo em nossas vidas, Ele nos assiste, nos protege em nossas fraquezas, intercedendo por nós.

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