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domingo, 24 de julho de 2022

Ovelha

 


Anos se passaram

E eu ainda choro quando lembro

Suas palavras tão duras

Suas atitudes raivosas

Tão cheio de si e de razão

Não quis conversar

Apenas despejou sua cólera

Estava esperando a dor passar

Não passou

Tentei escrever inúmeras vezes

Sem conseguir chegar à um fim

Um aperto no peito

Desejei que você se desculpasse

Mas desculpas nenhuma apagaria

Dias e noites de intensas lágrimas

Queria esquecer tudo isso

E voltar ser ovelha

Uma das noventa e nove.

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Despersonalização: eu, fora de mim

 



Eu, que não sou eu

Eu, na tela da realidade

Vivendo a irrealidade

Fora de controle

Fora do meu corpo

Fora da minha vida

Desrealizada

Despersonalizada

Eu, fora de mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Lei e misericórdia

 


Certa vez machuquei o joelho numa queda. Estava na rua e caí, o joelho bateu forte no asfalto e começou a sangrar. Não conseguia andar por causa da dor, um rapaz me ajudou levando-me  até um banco na praça bem em frente do local da queda.
Assim que sentei, olhei para o joelho e vi um buraco sangrando muito, a única coisa que tinha em minha bolsa para tentar segurar o sangramento era papel higiênico, mas ele logo ficava encharcado, pois sangrava muito. O moço que me ajudou antes de seguir seu caminho deixou um esparadrapo comigo, coloquei um monte de papel higiênico e enrolei com esparadrapo, ali mesmo no banco na praça. Passado alguns minutos e um pouco do nervoso de ver tanto sangue (sim sou dessas) vi uma farmácia bem em frente a praça.
Com muita dificuldade caminhei, mancando e com dor até lá, expliquei o que havia acontecido e pedi que fizessem um curativo. A atendente disse que não podia, ainda tentei convencer outro atendente, sem sucesso. Disseram que era proibido por lei fazer curativo em farmácia e falaram para ir ao hospital.
Fiquei bem chateada, pois mal conseguia andar, estava com o dinheiro da passagem contado; portanto não poderia ao menos chamar um Uber. O hospital mais próximo ficava há três quarteirões, distância curta para quem está saudável, não para mim que mal conseguia andar.
Ainda permanecei algum tempo no ponto de ônibus tentando decidir se deveria tentar caminhar até o hospital ou ir direto pra casa. Tenho uma vizinha que trabalha na área da saúde, e poderia pedir pra ela fazer o curativo quando chegasse do trabalho.
Não consegui ir ao hospital, fiz eu mesmo o curativo quando cheguei em casa.
Fiquei pensando nos atendentes da farmácia que não só se recusaram a fazer o curativo, afinal era proibido, como também não pensaram em me vender os itens para que eu mesmo fizesse. Simplesmente disseram “não é permitido”, sem empatia, sem nenhuma recomendação, a única sugestão foi “vá ao hospital”. Funcionários exemplares, cumpridores da lei, orgulhos do patrão. Fizeram sua obrigação, seu dever de casa.
Quantas vezes agimos assim? Ficamos do lado da “lei”, do pode ou não pode, valorizamos as regras e não pessoas?
Nesse caso não era algo muito grave, que gerasse consequências sérias a longo prazo, a questão é: como discernir quando devo abrir mão da lei, do estatuto em favor do ser humano?
 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Amada ou admirada?

 


Entre ser admirada e ser amada, prefiro ser amada. A admiração é fugaz, rasa. As pessoas muitas vezes te admiram sem te conhecer direito, sem saber dos seus defeitos e quando descobrem que você é "de barro" a admiração se transforma em condenação.

As pessoas que realmente me amam são aquelas que me amam e continuam a me amar apesar dos meus erros, apesar de mim.

As pessoas que amam são as que ficam. As pessoas que te admiram vão embora quando você escorrega. As que te amam te ajudam a levantar quando caí.

"O amor cobre uma multidão de pecados."


terça-feira, 18 de agosto de 2020

Fada madrinha

 


Quando você conversou com alguém que não queria, só para me ajudar.

Ensinou-me que o amor é sacrificial

Quando você chorou porque eu estava sofrendo.

Ensinou-me a compaixão

Quando me ajudou financeiramente

Ensinou-me a generosidade

Quando você fez uma retrospectiva das minhas vitórias diante do meu desespero

Ensinou o encorajamento

Você me ensinou tanto!

Você deixou a melhor herança que existe: o exemplo.


domingo, 24 de maio de 2020

Beto



Homem-menino
Te amo ontem
Te amo hoje
Te amo amanhã
Assim mesmo, com o verbo no presente.
Não conheço minha vida sem você
Te amo sempre
Meu presente mais presente.
Te amo pra sempre.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Quarentena




48º dia

Ainda estamos sob a vigilância da Convid-19.
O vírus chinês tem pautado nossas vidas, a pandemia nos controla. O Estado conseguiu colocar-nos uns contra os outros. Viramos algozes de nós mesmos. Não podemos mais sair de nossas casas, somos vigiados pelo Estado, pelos amigos e família. Qualquer passo fora do cronograma, podemos ser denunciados e linchados na praça pública das redes sociais.
O autoritarismo vive seus dias de glória. Estamos vivendo ao mesmo tempo: “1984”, “Admirável Mundo Novo” eA peste”.
As pessoas comuns são presas quando não seguem as regras, os criminosos são soltos para cometer mais crimes e os governantes usam o vírus para roubar a população.
A mídia manipula mais do que nunca as informações. O ministério da Verdade engana muitos e confundem outros.
As redes sociais estão intragáveis, nem mesmo meu excelente senso de humor é capaz de suportar. Uma parte da população minimiza a peste, outra parte está em pânico e descontrolada.
As pessoas estão insanas, tornaram-se monstros culpabilizando as vítimas, debochando dos mortos e ferindo a dignidade daquele que discorda.  
Preferi ficar um pouco alienada para preservar o mínimo de sanidade mental e saúde emocional.
Foram mais de 200 mil mortes no mundo, 10 mil no Brasil e 100 mortes na cidade.
É tanto absurdo que escolhi me refugiar no sótão da solitude.
Aguardando o socorro do Senhor.


sábado, 18 de abril de 2020

Peregrina



Nem ateia, nem fariseia.
Nem minion, nem socialista.
Nem preta, nem branca.
Nem direita, nem esquerda.
Nem reaça, nem comuna.
Quem sou?
Para os tradicionalistas, sou liberal.
Para os liberais, conservadora.
Para os esquerdistas, sou reaça.
Para os reacionários, isentona.
Não sou de lugar nenhum.
Não faço parte de coletivismo ideológico.
O que sou?
Uma amante das Letras e da Palavra.
Sobretudo uma miserável pecadora.
Perdoada e amada por Cristo.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Nem preta, nem branca




Preta, preta, pretinha
🎶🎵🎶🎵🎶🎵🎶🎵🎶🎵
Não, não sou não
Sou mestiça
Nem preta nem branca
Muito pelo contrário.
Não sou papel,
Mas sou parda sim
Sou essa mistura brasileira
Negro, mameluco, cafuzo
Mulata, cabocla, criola
Tudo isso é Brasil
Nação de infinitas misturas
Europeus, negros e americanos
Asiáticos, africanos e índios
Temos japonês loiro
Temos negro japonês
As misturas mais lindas
Essa brasileiridade sou eu.
Sou morena
Nem preta nem branca
Muito pelo contrário
Sou multicor
Sou brasileira.


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Empoderada era minha avó




Às mulheres da minha família

A velocidade do som é algo realmente surpreendente: você ouve coisas aos 20 anos e só escuta lá pelos 40. Tenho aprendido a valorizar e admirar meus antepassados. Os erros dos meus pais já não me parecem absurdos como pareciam na juventude.
Minha avó e tias não conheciam os termos empoderamento ou sororidade, mas eram na prática mulheres fortes e compassivas. As empoderadas de hoje se dizem autossuficientes, muitas acreditam que seu valor está num currículo Lattes, não assumem que são homens e mulheres juntos que constroem a sociedade, são mulheres que em sua maioria receberam um mundo pronto aos seus pés.  Dessa geração uma mínima parte teve que "desbravar" alguma coisa.
Empoderada?
Empoderada era minha vó.
Trabalhava em casa e na roça. Foi mulher, esposa, mãe de 8 filhos, dona de casa, servia na igreja local, fazia trabalho voluntário individualmente, participava de grupos de apoio etc. 
Hoje ao refletir sobre a mulher de fibra que era, penso nas mulheres de hoje que não aguentam metade, eu mesmo não sou 10% da mulher que minha vó foi.  As mulheres da minha família são em geral mulheres fortes. Mulheres da roça que continuam fazendo trabalhos braçais mesmo depois de se tornarem avós e ter tecnologias à disposição. Mulheres fortes não só fisicamente, aliás, a disposição física dessa geração é fruto da força moral. 
Minha geração infelizmente não seguiu os passos da minha vó e tias. Essas guerreiras demoraram ter micro-ondas e máquinas de lavar, criaram os filhos com fraldas de pano, que lavavam no braço.
Tiravam o leite para o café da manhã manualmente ou o leiteiro trazia em garrafas de vidro.
Almoço aos domingos era um grande acontecimento. Família toda reunida: vó, vô, tios, tias e uma multidão de primos. Matava-se galinha e/ou porco da própria criação para o almoço. Minha vó matava galinha torcendo o pescoço dela, vi a cena diversas vezes. Faziam doce de leite e outros doces em panelões para a sobremesa. Muitos se envolviam no preparo das pamonhas, era tipo produção, cada um fazia uma coisa, até as crianças participavam. Fazer pamonhas não era simplesmente culinária, era nosso evento familiar que ocupava quase todo o quintal grande da casa de uma das tias. O momento em que toda família "trabalhava" para desfrutar juntos do resultado. Trabalho prazeroso e divertido. Comunhão. 
Mulheres que tinham o poder de unir a família e ser/fazer apoio sólido entre si.
Hoje com o conceito de família se deteriorando, mulheres fúteis/vulgares se auto declarando empoderadas, com a epidemia de homeninos e toda decadência moral enxergo com mais clareza as virtudes dos meus antepassados. Mais do que compreender o que era dito, hoje percebo o valor do exemplo que elas me deram. Sou grata por ter na genealogia essas mulheres.



sexta-feira, 22 de março de 2019

Singularidade



Não quero ser outra
Não quero... 
Ser a próxima Nancy Pearcey na teologia.
Nem fazer poesia à la Adélia Prado
Ou ser filósofa tal Hannah Arendt
Não desejo escrever romances como Jane Austen
Não quero ser outra Flannery O'Connor
Não quero ser mais uma Carolina de Jesus
Não tenho pretensão alguma de alcançar essas mulheres incríveis.
Quero ser apenas eu
Ser citada sem comparações
Ser a Márcia Pinho

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Finais machucam, recomeços curam.




Fim.
Dor.
Nunca aprendi dizer adeus, é doloroso o processo de deixar ir quem você quer que fique. Quando alguém que amo sai da minha vida, entro num período de luto. Mas Deus não desperdiça nenhuma dor. Ele a usa para Seu divino propósito, e também para ajudar outros. Quem passou por determinada dor consegue compreender bem e ajudar aquele que passa pela mesma experiência.
Feridos não curados ferem e feridos curados são curadores.
E depois que passa a tempestade, depois de todos os conflitos mal resolvidos ficarem no passado, depois da raiva, da mágoa, do ressentimento vem o arco íris. Depois de tudo, você percebe que deve ser grata por todas as turbulências, por todas as pessoas tóxicas que passaram pela sua vida, tudo foi um aprendizado para que entendesse e cumprisse melhor o plano de Deus. As dores e pecados nos cegam.
Todas as lágrimas derramadas serviram para regar as sementes que estavam escondidas no seu coração e que agora florescem.
Depois que você entende, há certo alivio em constatar que Ele estava no controle de tudo como sempre e Seus planos são infinitamente mais altos que nossas dores.
As pessoas que despedaçaram seu coração no final foram suas ajudadoras, com elas você pôde aprender mais sobre si mesmo. O que o motivou ter um relacionamento tóxico, por qual motivo permaneceu o tempo que permaneceu, como conseguiu superar, inúmeras questões podem ser levantadas e então você se encara tal como é. Suas fraquezas são expostas, seu caráter pode ser fortalecido quando se supera uma crise.
Sou grata por esses passantes tóxicos, apesar da dor, me ensinaram coisas que acho que não saberia se não fossem eles.
Não há nada, absolutamente nada fora do controle do Soberano e nada que Ele não use na vida de seus filhos para o fim supremo.
Agradeço de coração limpo todo o mal que me fizeram, pois o Senhor os transformou em bênçãos.
Cura.
Recomeço.

 "Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem."


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Suicídio: Por que você não se mata?




“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. Albert Camus

Essa é uma questão filosófica, que envolve o sentido da vida. Toda pessoa deveria pensar e responder essa pergunta. Todos os dias pessoas cometem suicídio. As razões são diversas; perda do trabalho, crise financeira, luto, doenças, crise afetiva amorosa. Por alguma razão o peso da vida se tornou insuportável, não enxergando mais motivos para viver ou por não conseguir uma maneira de superar os problemas, vê-se a morte como uma solução, a única saída para o absurdo da vida. Uma das razões mais comuns para o suicídio é a depressão.

Transtorno e sofrimentos psicológicos parecem se espalhar pelo ar nos nossos dias, como um vírus que contamina a vida moderna. Nossas dores se multiplicam e ganham nomes, centenas de nomes. E organizações de saúde já falam em uma epidemia de depressão. Ela é um demônio que não nos deixa levantar, que nos espreita ao meio dia, que caminha ao nosso lado como uma sombra. O que não muda nunca é o sofrimento humano, mas em um mundo hedonista não há espaço para as angustias, coisa de gente mal resolvida. Falar de melancolia é falar da dor humana e do sentido da vida.
                                                                              Luiz Felipe Pondé




O suicídio é um assunto bastante delicado e um tabu, repleto de opiniões divergentes. Há quem diga que a pessoa que tira a própria vida é covarde, fraco por não continuar lutando. Há quem diga que o suicida é corajoso por ir contra a natureza humana de preservação da vida. Não creio que essas visões abarcam a totalidade da questão. Durante muito tempo pensei em escrever sobre o assunto, sem saber como dissertar sem me expor, acho que não sei escrever sem ser autobiográfica.
Certa vez um amigo me perguntou: “Você acredita em milagres?”.
Minha resposta: “Minha vida é um milagre, toda a minha vida é um milagre. Eu vivo de milagres.”.
Poucas pessoas conhecem minha história, gostaria de contar tudo o que vivi e tornar públicas as minhas experiências. Talvez ainda não seja o momento. Por enquanto vou dando “spoilers”. Acredito no poder do testemunho e tornarei pública minha experiência com o suicídio.
A tristeza se fez presente muito cedo em minha vida, tinha uma personalidade melancólica, pessimista e cética; quase um Schopenhauer de saia.
Por volta dos doze anos de idade, eu tentei me matar. Já era um pensamento  recorrente, mas não sabia como colocar em prática.
Prestando atenção nas reportagens sobre artistas que morreram de overdose descobri que muitas dessas overdoses envolviam uma mistura de drogas/remédios com álcool. Foi nessa época que li o relato do Marcelo pela primeira vez, o autor conta em “Feliz Ano Velho” que tentou o suicídio, como bem sabemos sua tentativa não deu certo. Mas comigo daria, pensei.

“Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal? A única certeza que tenho é de que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?”[...] Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava passando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali deitado, e era eu que estava desejando minha própria morte. Mas nem disso eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca. Foi o que eu prometi a mim mesmo. “Se eu não voltar a andar, darei um jeito qualquer pra me matar.” Era bom pensar assim. Eu não tinha medo de morrer. Era muito mais fácil a morte que a agonia daquela situação.
Marcelo Rubens Paiva


Numa noite antes de dormir, fui até a caixa de remédios dos meus pais e peguei vários comprimidos, não entendia nada de medicamentos e não fazia a menor ideia do que estava pegando. Tomei os comprimidos junto com um copo de aguardente, a famosa pinga 51.  Deitei-me achando que morreria enquanto dormia e no dia seguinte amanheceria sem vida.
Quando acordei no dia seguinte, a primeira coisa que pensei foi: "Droga! Não morri!" e "Nem pra morrer eu presto!”.
Nunca mais tentei acabar com a minha vida, mas pensei inúmeras vezes.
Anos mais tarde descobri que os remédios que eu havia tomado eram homeopáticos e, portanto não tinham o poder de matar. Uma das coisas mais ridículas da minha biografia com certeza. Minha história com o suicídio não termina aqui, ainda.
Já adulta fiz trabalho voluntário numa ONG de prevenção ao suicídio. Coincidência?
Trabalhei mais ou menos 10 anos e ouvi coisas inimagináveis. Protegidas pelo anonimato, as pessoas não tinham receio algum e rasgavam seus corações para os voluntários.  Um trabalho que me fez adentrar no mundo daqueles que perderam a vontade de viver, caminhando com suas dores, consegui sentir melhor os dois lados da moeda, isto é, a vontade de partir ao mesmo tempo, o desejo de ficar. O fato de conhecer tão bem o drama de quem não quer mais viver, me fez valorizar mais a vida. A verdade é que eles não queriam de fato morrer, queriam deixar de sofrer, acabar com a dor.
Não pensei em tirar minha vida durante muito tempo, até ser atingida por uma tragédia, de fato.  No auge da vida adulta sofri um grave acidente de trânsito. Era independente, trabalhava, fazia faculdade, tinha uma vida social ativa e em menos de um segundo tudo mudou. “Feliz Ano Velho” foi relido, teve um efeito catártico. 
Após meses imobilizada numa cama, meses de fisioterapia, sofri também as consequências psicológicas. Tive quatro doenças simultâneas: estresse pós-traumático, depressão, transtorno de ansiedade e de despersonalização.  Tudo junto e misturado. 
 Então o pensamento de morte voltou, era uma ideia extremamente atrativa diante do que estava vivendo.

Em meio ao tratamento psicológico, fui liberada para voltar ao trabalho pelo médico da Previdência Social.
Durante certo tempo tentei descrever a sensação de ter perdido a si mesmo, de se ter um buraco negro dentro d’alma. Eu que gosto tanto de palavras fiz um esforço para que alguma coubesse em minha Ausência. Esmiucei o dicionário, acabei com o estoque de adjetivos para tentar qualificar meus sentimentos, nenhum vocábulo foi suficiente para descrever meu estado. A dor que eu sentia era inominável!
Todos os dias eu ia trabalhar usando o metrô, e era na espera pelo trem que a ideia de morte batia mais forte. Ouvia uma voz que dizia: “Vai, se joga na frente do trem, será rápido e indolor, é morte instantânea, acaba de uma vez com essa dor.”.
Era uma tortura. Todos os dias enquanto aguardava o trem, essas palavras se repetiam na minha cabeça. Dia após dia, Vida e Morte travavam uma guerra no meu íntimo.
Mas todos os dias a Vida ganhava, o Espirito Santo me lembrava de todas as vezes que vi a Morte face a face, e uma voz dizia: “Você sobreviveu até aqui, escapou várias vezes, tem uma razão para continuar vivendo, você tem uma missão a cumprir, Ele te chamou, continue lutando.”.
Pensava em Cristo, na minha salvação espiritual e quem sabe a salvação física fazia parte também? Por que não morri no acidente? Por que não morri das outras vezes que minha vida ficou por um fio? Deve haver uma razão para ter sobrevivido. E se realmente não é minha hora? E se mais uma vez eu sobreviver?
Cheguei à conclusão definitiva que não sou dona de mim. Minha vida não me pertence. O Senhor a comprou com Seu sacrifício na Cruz. É Ele quem decide quando e como partirei. Não devo, não posso e não quero ir contra o Dono da minha vida.
Por que eu não me mato?
Sei que meu Redentor vive e a esperança é a âncora da minha alma.
Sei principalmente que não existe vida fora da Palavra.

P.S: aos que sofrem com dores da alma, aos que pensam em não mais viver: continue lutando! Sua vida vale muito mais do que imagina.


sábado, 7 de julho de 2018

PAI




Copa do Mundo.
Brasil em Campo.
Velado ao som de “Goooool!!!”
Enterrado com  vuvuzelas.
Brasil ganhou.
Te perdemos.
Vai Brasil!
Tchau pai.

A Copa continua.
Ele gostava de assistir aos jogos.
Às vezes passava mal, era muita emoção.
Tinha um coração debilitado pelas doenças, pelo tempo, pela vida, pelos pecados.

Sua ausência se faz presente.
Presença que pesa.

Fui ao mercado, tive vontade de comprar goiabada para você.
A seção de doces e sobremesas é o lugar que mais lembra você.
Gelatina, bolo, goiabada, marmelada, frutas em calda.
Algumas vezes levei guloseimas para te ver feliz.

O único devorador de doces na família.
Aí veio a dona Diabete, essa estraga prazeres!
E você foi proibido das suas delícias.
Assaltava a geladeira escondido.
Todos sabiam.
Só você achava que era escondido, dizia:
“Comer é o único prazer que tenho.”
Gerava compaixão, abriam-se exceções.
“Deixa ele comer, é só um pouco.”
“É só não abusar que está tudo bem.”

E víamos em seu rosto, o deleite.
Nos últimos tempos, o via sorrir somente quando comia suas guloseimas proibidas e quando via os filhos.
Seu sorriso ao me ver era a minha alegria.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Não houve reparação



Você me bloqueou
Me deletou da sua vida
Eu não sei como conseguiu
E todos aqueles discursos sobre as relações líquidas?
"Suas ideias não correspondem aos fatos"

Fui descartada
Nunca vou compreender
Éramos irmãs
Como amigas de infância
Como pôde me desprezar?
Como pôde me excluir?!
Foi difícil aceitar
Doeu
Não houve reparação

Agora estou conformada
Mais leve
Sem o peso da mágoa
E da rejeição
Sei que marquei sua vida
E se lembrará de mim
Tínhamos uma história a ser construída
Mas não houve reparação.

Você foi embora
Antes do recomeço
Você se lembrará de mim
Quando pensar em como conheceu a "selva de pedra"
Quando visitar o Parque
Quando andar pela Paulista
Você se lembrará de mim...
Todas as vezes que ouvir/ver algo sobre "Os Miseráveis"
E quando visitar os lugares que eu te mostrei

O tamanho da decepção, da frustração e da dor é proporcional ao investimento emocional.

Você se lembrará de mim
E eu...
Eu não quero mais me lembrar de você.


domingo, 15 de abril de 2018

Funeral




Acordei
Meio sonâmbula
Ainda absorta pela cerimônia
Foi morte morrida.

Eu te matei

Matei o que já estava morto.
Não sei vivenciar o luto
Meu processo é deveras longo
As cinco etapas são como cinco séculos

Eu te matei

Enterrei
Fiz cerimônia fúnebre
Teve até um memorial
Você sabe
Aqueles vídeos com lembranças
Suas imagens em "slow motion"

Recordei todos os momentos
pelos quais nossa história não deveria ter existido
Anotei todos os motivos
pelos quais eu nunca deveria ter te conhecido
Revivi todas as dores
pelas quais nunca entendi
Repassei todos os porquês
 pelos quais eu agora desisti.

Eu despertei
Eu te matei
Definitivamente

quinta-feira, 29 de março de 2018

Se vira!




Tenho medo
Medo do futuro
Medo de mim
De quem serei
No que me tornarei
Hoje, um fracasso
Daqui há 10/20/30 anos?
Serei ranzinza, amargurada?
Ressentida e só?
Talvez com um bichinho de estimação como única companhia.
Serei uma daquelas pessoas que os outros acham esquisitas e não se aproximam?
Estou atrasada na vida.
E não tenho algo/alguém para culpar.
A ausência de um bode expiatório é pesada.
O problema é meu
O problema sou eu.
A mensagem que recebi a vida toda:
" Cada um com seus problemas, se vira!"