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domingo, 2 de agosto de 2020

Amélia ou Feminista ? CRISTÃ



Nem Amélia, nem feminista. Nem capacho de "macho escroto", nem aquela que descarta e desumaniza o sexo oposto. A mulher cristã não cabe nesses padrões. Há pessoas que acham que só existem esses dois tipos de posturas femininas. A mulher cristã não se amolda aos padrões desse mundo, sua mente é renovada pela Palavra de Deus, nosso guia. A mulher cristã é abastecida pela sabedoria do Alto, é sensata, prudente, não cai em extremos e nem se deixa seduzir por discursos humanistas.

A mulher cristã sabe que homens e mulheres são criados à “imagem e semelhança” de Deus, ambos com igual valor e dignidade. Ambos foram criados para serem parceiros para o propósito do Senhor. O pecado corrompeu ambos, machismo e feminismo não fazem parte do plano de Deus. Todos os dias, vejo o feminismo seduzindo mulheres de todas as idades, fico triste, pois sei que muitos conceitos e práticas dessa ideologia são contrários à Palavra de Deus. Mas sei também que o apelo é grande. Por essa razão quero incentivar vocês conhecer melhor o feminismo e também como o feminismo não combina com o Cristianismo. Há no mercado editorial inúmeros livros pró-feminismo e anti feminismo.

É preciso conhecer os dois lados, leia-os, compare e perceba as discrepâncias. O ideal mesmo seria um estudo consistente da Bíblia, mas pelo que vejo, o estudo da Palavra tem sido raro e raso. Então leia e estude! 

Reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro.
Fala com sabedoria e ensina com amor.

Provérbios 31:25,26

sábado, 18 de maio de 2019

Escrever é sangrar.


Tenho pensado como a democratização da escrita tornou a atividade banal e pouco valorizada, situação agravada com as redes sociais. Hoje em dia, qualquer um pode se dizer escritor. Inclusive há diversos escritores/poetas de rede social que tem livros publicados.
Por azar, temos leitores com pouca habilidade para discernir o que é "isto ou aquilo". A deficiência na educação e cultura gerou leitores anoréxicos, não conseguem avaliar uma obra literária fruto de "inspiração e transpiração" daquela fortuita. Também o hábito de leitura mudou, lê se mais, porém a qualidade dos textos tem piorado.
A arte da escrita está banalizada, é um fato, prova disso são os inúmeros livros de (sub) celebridades que nada têm a dizer e enchem as páginas com clichês ultrapassados e besteirol. Eles têm como aliados além das redes sociais, os programas de TV e a fama, mas talento literário de fato está escasso. Para comprovar o que digo basta visitar uma livraria e observar a seção "lançamentos" e a de "mais vendidos".
São livros rasos, que visam o lucro e mais fama, conteúdos superficiais para gente superficial. Essa geração mimada da sociedade líquida ainda não entende que uma boa escrita é feito de sangue, suor e lágrimas.
 Escrever é sangrar.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Singularidade



Não quero ser outra
Não quero... 
Ser a próxima Nancy Pearcey na teologia.
Nem fazer poesia à la Adélia Prado
Ou ser filósofa tal Hannah Arendt
Não desejo escrever romances como Jane Austen
Não quero ser outra Flannery O'Connor
Não quero ser mais uma Carolina de Jesus
Não tenho pretensão alguma de alcançar essas mulheres incríveis.
Quero ser apenas eu
Ser citada sem comparações
Ser a Márcia Pinho

segunda-feira, 26 de março de 2018

Era uma vez ... sem final feliz



Era uma vez...
Uma garotinha triste e introvertida.
Ela não tinha uma boa autoestima.
Ouvia coisas dos adultos que crianças não deveriam ouvir.
Adultos faziam com ela coisas que não eram para se fazer com crianças.
Ela não tinha amigos.
Só um caderninho pra desabafar suas tristezas.
A garotinha cresceu, virou uma mocinha.
A mocinha não se achava bonita, não chamava a atenção dos garotos.
Ela tinha cabelo pixaim e usava óculos.
A mocinha era extremamente insegura.
Ela também tinha um caderninho para escrever suas crises existenciais.
A mocinha virou uma jovem.
A jovem estudava e trabalhava.
Mas também se divertia com os amigos que fez.
A jovem namorava.
Recebia o amor que pensava merecer.
Relações tóxicas.
Quase se envenenou.
Se não fosse o caderninho!
Ela colocava o veneno pra fora.
Vomitava as dores em forma de palavras.
A jovem se tornou mulher.
Essa mulher ainda abrigava a garotinha triste e introvertida.
Mas aprendeu a disfarçar.
A mulher era insegura como a mocinha.
Ainda não aprendeu a ser amada.
Algumas vezes aceita veneno com rótulo de amor, igual a jovem.
A mulher tem um caderninho para escrever.
E um blog para publicar tudo o que não cabe em si.
Ela deseja que esse caderninho/blog vire um livro.
Ela acredita em final feliz.
O final feliz dela não é aqui.
O final feliz dessa história está em outro Livro.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Soberba literária: eis a questão!




Por volta dos 13 anos de idade tive o primeiro contato com os textos de William Shakespeare. Tinha um primo que estudava teatro e eu passava alguns dias das férias na casa dele. Havia uma coleção de livros bonitos, vermelhos, uns 20 em média, todos iguais, no mesmo tamanho (altura) de capa dura na estante. Assim que vi fiquei interessada, coleções sempre chamam a atenção numa estante.
Eu não sabia quem era Shakespeare, simplesmente os livros estavam a minha disposição.
Gostei do Will logo de cara, acho impossível alguém não gostar dele.
Aos 20 e poucos anos, já conhecendo a importância do autor, tagarelava minha façanha vez ou outra: "Li Shakespeare na adolescência.”.
A verdade é que fui uma privilegiada, aos 20 anos conhecia Shakespeare, Machado e mais um pouco de boa literatura.
Livro é artigo de luxo, no sentido monetário, social e intelectual.
(Obs.: Acredito sim que há bons livros e outros nem tanto).
A soberba me picou, de tempos em tempos contava das minhas “altas” experiências literárias.
Isso demorou um bom tempo para passar. Até o dia em que alguém me disse:
 “Você não leu Shakespeare, você leu uma tradução de Shakespeare”.
Talvez você esteja se perguntando: "Mas não é a mesma coisa? O conteúdo é o mesmo.”.
Não, não é a mesma coisa, até o fim do artigo espero que compreenda.
Então eu entendi uma série de coisas.
* Ler por ler, ler só para aumentar a lista de leitura, ler para se encher de conhecimento, ler para mostrar ou postar nas redes sociais... Tudo isso é pura vaidade, vazio.
* Se ler muito e ler bons livros te faz soberbo, melhor continuar inculto. Não ter bom conhecimento literário é ruim, mas não é pecado.
* Ler muito e ler bons livros pode te fazer desprezar outras leituras excelentes, só porque não consta na lista de "bons livros".
* Há diversos tipos de leituras e você não precisa menosprezar uma em detrimento da outra.
* Ler para alimentar a alma, ler para se divertir, ler para se informar, ler por obrigação. Todas as leituras podem conviver e também convergir.
* Uma leitura leva à outra. Todo autor bebe de alguma fonte, a partir de uma obra você acaba conhecendo outras. Todo obra tem referências (diretas ou indiretas). Não existe obra totalmente original (pelo menos eu desconheço). Até mesmo a Bíblia teve "inspiração". (Não, não vou entrar na questão).
* Se o seu conhecimento literário (ou qualquer outro) não te faz uma pessoa melhor, se as suas leituras não servem ao próximo, pare!
* Ler adaptações, traduções e outros tipos de leituras "não originais", tem seu valor, dependendo do contexto. Eu não teria conhecido Shakespeare sem tradução.
O último ponto me faz valorizar a tradução e também o trabalho de muitos escritores que compilam/mastigam obras inacessíveis ou temas complexos e tornam acessíveis.
Algumas coisas ficariam difíceis se tivéssemos que ler/pesquisar diretamente da fonte original.
Ao mesmo tempo, esse último ponto também me diz que não tenho que me ensoberbecer por ter lido Shakespeare tão cedo. Na verdade não li Shakespeare cedo, eu o conheci. Isso faz muita diferença.
Ler Shakespeare significa ler em inglês, conhecer outro idioma. E se você ainda acha que não faz diferença ler em português ou em inglês, as obras originais do Will são em inglês arcaico e não em inglês Netflix.
Para terminar, Willian Shakespeare inventou milhares de palavras e causou mudanças na linguagem.
Ler Will no original significa não só conhecer outro idioma, mas também conhecer o inglês arcaico e a mudança linguística e de pensamento no decorrer dos tempos.
Não há motivo nenhum para se gabar de ler uma tradução (a obra mastigada) de Shakespeare.
Sou grata pelas oportunidades que tive, por tudo que conheci até hoje e ainda mais grata por saber que tudo o que conheci não significa nada comparado àquilo que não conheço.

domingo, 11 de março de 2018

Reparação





“Atonement” é uma obra do inglês Ian McEwan.
Em 2007 foi ao cinema e chegou ao Brasil com o título “Desejo e Reparação”. 
Atonement = reparação ou expiação.

Reparação: s.f. 1. Ato ou efeito de reparar; restauração, conserto. 2. Satisfação dada a alguém por uma falta, uma ofensa; retratação.
Expiação: s.f. 1. Purificação de crimes ou faltas cometidas. 2. Meio usado para expiar (-se); penitência, castigo, cumprimento de pena; sofrimento compensatório de culpa.

Ao longo da história, as pessoas foram obrigadas a tomar decisões difíceis, e até trágicas – sobre como reagir aos sofrimentos pelos quais passaram nas mãos de outros – ou sofrimentos que elas próprias causaram aos outros. O impacto em alguns casos perdura por toda a vida. Alguns erros são irreparáveis.
Muitas e muitas vezes nos deparamos com o dilema sobre a forma de responder à crueldade e ao sofrimento que impregnam a nossa vida.

Como responder ao mal?
Devemos fazer as pazes ou partir para uma retaliação?
É possível encarar aqueles que nos feriram?
Temos condições de conviver com nossos algozes?
E quanto ao mal que causamos aos outros?
Como conviver com a culpa e remorso pelo mal que causamos?
É possível desfazer ou compensar esse mal?
 
Há duas formas de lidar com o mal. A primeira implica no desejo de vingança e represálias ou uma suposta indiferença (não existe indiferença ao mal). A segunda, compaixão e fortaleza. A primeira nos enterra em ressentimentos e na amargura. O sentimento de injustiça nos corrói.
O desejo de vingança é instintivo, queremos ir à forra, ainda que de maneira sutil e elegante (?), isto é, sem sujar as mãos, sem parecer que estamos nos vingando. Há muitas maneiras de vingança, algumas até se parecem com bondade, outras se confundem com indiferença. Já disse: não existe indiferença ao mal.
Muitas vezes o impulso de reconciliação nos sobrevém, mas como lidar com a mágoa guardada?  Para expulsar a mágoa, exercer o perdão e a reparação será preciso uma força descomunal. Ir contra a natureza de pagar mal com o mal, humilhar-se perante o agressor/vítima. O ato de misericórdia não é para fracos, são para os pobres de espíritos, para os quebrantados. O orgulho, o ego ferido são empecilhos para a reparação e a reconciliação. A compaixão é o antídoto, pode quebrar os corações mais duros, pode dissolver culpas e mágoas nutridas por longo período.
Sem o perdão e a reparação os ciclos de violência (mesmo velados) continuam.
Num mundo que enfrenta ciclos de violência contínuos, quase ninguém se dispõe a pedir perdão, e muito menos conceder perdão. Se recusar a perdoar ou fazer reparação é menosprezar a Misericórdia. Perder a justiça reparativa que cura e liberta do cativeiro do ressentimento.

“Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.” 2 Coríntios 5:19.

O ato de perdoar e fazer reparação são o reconhecimento de nossa humanidade e da humanidade do outro. Perdoar é nobre; ser perdoado pode ser um alívio, perdoar genuinamente é sobre humano em certos casos.  E a reparação é irmã do perdão e uma via de mão dupla que pode ser exercida tanto pelo agressor quanto pela vitima. Perdão e reparação são os dois lados da mesma moeda. É preciso reparar os erros, as pessoas feridas precisam ser restituídas em sua dignidade, pois o pecado rouba a dignidade humana.
A reparação faz parte do processo de cura. Como agressores devemos demonstrar ao ferido o desejo de compensação, demonstrar
a profundidade de nosso desejo de sermos perdoados. Como vítimas, devemos demonstrar o desejo de perdoar; é o processo de cura e restauração.
A reparação tem o propósito de aliviar a culpa dos agressores e o ressentimento das vítimas, é o ato que faz correções, repara os danos, propõe a restituição, procura fazer uma compensação, limpa a consciência do transgressor, alivia o ódio da vítima e faz justiça com um sacrifício (em alguns casos) correspondente ao dano que foi feito.
Sem nos dar a oportunidade de reparar o mal que causamos/sofremos, por maior que tenha sido, ficamos presos ao passado; sem condições de viver plenamente o momento presente. Enquanto as feridas do pecado não forem tratadas, a dor continuará tanto em você quanto no outro.

“Uma pessoa é, acima de tudo, uma coisa materialfácil de danificar e difícil de reparar.” Ian McEwan



segunda-feira, 5 de março de 2018

A princesa flutuante




O livro “A princesa flutuante” é um conto de fadas, você o encontra no departamento infantil das livrarias, mas não se engane. Não é um livro (só) para crianças. É um daqueles que atravessa gerações, pois fala sobre amadurecimento, amor, superação de obstáculos, entre outras coisas comuns a todos. Como o próprio título sugere, nesse conto temos uma princesa que flutua ao invés de andar. Por causa de uma maldição que recebe em seu batismo ela se torna imune à “gravidade”. A palavra “gravidade” tem duplo sentido nessa história, gravidade física e emocional. Para desespero dos pais a princesa não consegue levar nada a sério, está sempre rindo e flutuando. Um dia, ela descobre que a água a torna igual às outras pessoas. O encanto perde o poder (somente) quando está dentro da água, com isso a princesa passa cada vez mais tempo nadando no lago próximo ao palácio.
Mas a autora da maldição não se conforma em ver uma falha no feitiço ver a princesa feliz. A bruxa faz outro feitiço para que o lago seque por completo. Então o lago começa a secar e a princesa a definhar. Logo o rei trata de procurar uma solução para o problema.
A única forma de reverter o feitiço é um sacrifício voluntário.
Sacrifício voluntário? Isso me é familiar...
Alguém teria que morrer para quebrar o feitiço e o lago não secar.
Não vou contar como é esse sacrifício, como é feito e quem é o voluntário para que você leia e se encante com essa história, assim como eu.

A editora disponibilizou algumas páginas de degustação nesse link:


Vou confessar que só me interessei em ler esse conto de fadas por causa do autor.
George MacDonald nasceu na Escócia, em 1824. Estudou para ser pastor, mas abandonou a carreira, tornando-se professor e escritor. Sua vasta obra, de contos de fadas e romances de fantasia, inspirou outros grandes nomes da literatura. Foi mentor de Lewis Carroll, incentivando-o a publicar Alice no País das Maravilhas. Tolkien, Mark Twain e C. S. Lewis também foram inspirados por ele.
A primeira publicação de “A princesa flutuante” foi em 1864. Para saber mais do autor segue o blog:



Capa do livro






  



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Teologia do autoconhecimento



Conheci a expressão “Teologia do autoconhecimento”[i] no livro Inteligência Humilhada, onde o autor Jonas Madureira dedica um capítulo para tratar desse assunto.
O autoconhecimento é essencial para o “ser cristão”.  Muitos cristãos infelizmente menosprezam a psicologia, mas antes de ser uma ciência, a psicologia pura e simples é um encontro com Deus.
Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão). Psicologia poderia ser compreendida então como o "estudo da alma" ou a "compreensão da alma". [ii]
Como cristã creio que não existe melhor “compreensão da alma” do que “ver” Jesus Cristo. Sei que tal afirmação só pode ser compreendida por aqueles que “experimentaram” Deus em suas vidas. Não tenho a pretensão de ser compreendida por todos, e nem é possível.
Antes da minha conversão ao Cristianismo, me interessava por Psicologia, estudei por conta própria durante anos. Queria entender a razão de ser como era, queria saber o motivo de como certos eventos me afetavam, queria me conhecer. Também gostava de Filosofia, li Platão, Aristóteles e Sócrates; minha sede por autoconhecimento foi aumentando. A Psicologia e a Filosofia faziam um belo casal, eu acreditava que poderiam me dar as respostas que a religião não me dera anteriormente (frequentei a Igreja Católica na infância e adolescência).
Por conta dos dilemas existenciais e das feridas emocionais procurei psicoterapia, durante alguns anos foi benéfico. Cheguei a declarar que a Psicologia havia me salvado, e de fato naquela época foi uma solução paliativa, aliviou parte de meu sofrimento.
Mas o conhecimento do meu ser interior mesmo só chegou quando tive um “encontro pessoal com Deus”. (Algumas expressões só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que “nasceram de novo” pelo Espirito Santo). Em todo caso, tentarei explicar.
Segundo o reformador Calvino:

... O homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão Dele examine a si próprio. Ora, por causa do orgulho, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, íntegros, sábios, santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça e indignidade. [...] uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. [...] Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele, e quão completa a perfeição de sua justiça [...] Quando, pois, manifestando Ele sua glória, caímos de tão abalados, prostrados como pelo pavor da morte, e quase aniquilados, conclui-se que o homem não é jamais afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.[i]



Nomeio esse pensamento de Calvino de “teoria do espelho reverso”. O espelho é um objeto que reflete a nossa própria imagem. Num encontro com Deus, Ele é o espelho reverso. De frente ao Espelho não se vê de imediato a própria imagem, mas sim a imagem de Deus. Vemos toda a sua Glória, Majestade, Soberania e Santidade. Esses atributos espelham em nós e revelam a nossa imagem, uma espécie de bate e volta. Eu vejo Deus e sua imagem reflete/revela a minha própria imagem. Então nesse momento, em frente ao Espelho eu vejo duas imagens simultaneamente, a Santidade de Deus e a minha miséria, de forma proporcional. Deus é tão santo, quanto eu sou miserável pecador. Só reconhecemos a medida de nossa pecaminosidade diante da Santidade Dele.
É desse momento em diante que começa a santificação, um processo que ocorre após me enxergar através Dele e conhecer o mal que habita em mim. Saber quem sou eu e quem é Deus fez com que eu buscasse a santidade, ao me conhecer de fato e conhecê-Lo, o desejo de não ser mais quem sou e sim me tornar mais parecida com Ele, tomou conta do meu ser.
Em Crônicas de Nárnia, há uma alusão a esse processo:

Não vou contar como virei dragão, mas vou lhe dizer como deixei de ser dragão. (...) Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. [i]



Assim como Eustáquio/Dragão estamos em mutação, agora que sabemos que somos “dragão” deixamos que Ele, o Leão arranque nossas camadas. Permitimos ser feridos por Suas unhadas, uma ferida que dói e cura ao mesmo tempo. A cura acontece quando deixamos que Ele arranque nossa pecaminosidade, nossas falhas de caráter. Ah como dói abrir mão do nosso “eu”! Mas à medida que a pele (“eu”) é arrancada, nossa verdadeira identidade é recuperada (“imago dei”).
Agostinho de Hipona, o santo queridinho dessa que vos “fala”, sentiu essa ferida e deixou em seu “diário” o relato:

“Feriste-me o coração com a tua palavra, e desde então te amei.”[v]


Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[vi]

Para resumir:
“Sem o autoconhecimento não existe Cristianismo”. [vii]


Referências bibliográficas:




[i] MADUREIRA, JONAS, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017).

[iii]  CALVINO, JOÃO, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1 Edição clássica Cap. I: 1 p.47,48 (Paráfrase minha).

[iv] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia/A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 2009), p.450-1.

[v] AGOSTINHO, Confissões (São Paulo: Paulus, 1997). Livro X, 6:8

[vi] AGOSTINHO. Confissões (São Paulo: Paulus, 1997) Livro X, 27:38 (grifo meu).

segunda-feira, 20 de março de 2017

Lewis: O mais relutante dos convertidos


Clive Staples Lewis, mais conhecido como C.S.Lewis (1898-1963) foi um professor universitário, teólogo anglicano, poeta e escritor britânico, nascido na Irlanda do Norte. Destacou-se pelo trabalho acadêmico sobre literatura medieval e pela apologética cristã que desenvolveu através de várias obras e palestras. É igualmente conhecido por ser o autor da famosa série de livros infanto-juvenis As Crônicas  de Nárnia”.
Seus livros já venderam mais de cem milhões de exemplares em todo o mundo, incluindo clássicos como “Cristianismo puro e simples” e “Cartas de um diabo a seu aprendiz”. Contudo, C.S.Lewis nem sempre foi um gigante da fé cristã. Este livro revela um aspecto particular de sua vida, seu período de ateísmo, a jornada pessoal, de ateu convicto a um dos mais influentes escritores cristãos de nosso tempo.
 Ao abandonar o ateísmo, Lewis se tornou um destemido e bem-sucedido mensageiro da fé, principalmente no meio acadêmico e literário. Foi altamente respeitado no campo da literatura em toda a Europa, tanto como professor quanto como escritor. Em Oxford conheceu vários escritores famosos, como J.R.R. Tolkien (autor de “O Senhor dos Anéis”, de quem viria a se tornar grande amigo).
Encontramos em seus livros de ficção muitas metáforas e alegorias referentes ao cristianismo, misturado a mitos nórdicos. Seus últimos anos de vida foram retratados no filme norte americano “Shadowlands” (Terra de Sombras), protagonizado por Anthony Hopkins.
Em sua famosa obra “Cristianismo puro e simples”, Lewis explica os fundamentos do cristianismo. Eu entendi o que significa ser cristão a partir dessa obra. Foi por meio desse livro que pude compreender perfeitamente o cristianismo porque partiu justamente de alguém que também não entendia, por isso a considero fundamental. Lewis faz o cristianismo parecer a coisa mais lógica do mundo em seus argumentos.
 Rejeitou qualquer crença para depois se tornar um dos autores cristãos mais influentes. Quem poderia ser melhor defensor da fé cristã do que aquele que a rejeitou?

 O mais relutante dos convertidos foi “Surpreendido pela Alegria” titulo de sua autobiografia, em que descreve explicitamente seu encontro com Deus. 

Cristianismo puro e simples


“Cristianismo Puro e Simples” é a maior aula sobre cristianismo que tive o prazer de receber. O livro analisa a essência do Cristianismo de forma profunda e didática. O acadêmico Lewis sintetiza de forma objetiva o universo dos cristãos, uma obra prima!  Pessoas dentro e fora do Cristianismo têm dificuldade de entender o que significa ser cristão.
Desde seu princípio, o Cristianismo pregou a metanoia, isto é, a mudança de mente sobre tudo o que há nesse mundo. A ênfase de Cristo foi restaurar a humanidade, e grande parte do seu discurso diz respeito ao sentido da vida.
A fé não exclui a presença da dúvida nem do questionamento sobre a realidade das coisas, não podemos compreender 100% do universo, como já dizia meu amigo Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.”
A mensagem da fé cristã é simples, mas não simplista. O mundo é complexo, e a fé se aplica a toda a sua complexidade. Esse intelectual e ateu convertido nos diz de forma clara e racional sobre essas complexidades e os alicerces do cristianismo. 
Se você é cristão, você precisa ler esse livro.
Se você é apenas simpatizante do Cristianismo, você precisa ler esse livro.
Se você não sabe se é ou se quer ser cristão, você precisa ler esse livro.
Se você é um crítico do Cristianismo, você precisa ler esse livro.

Nunca é demais lembrar que você precisa ler esse livro para entender o que significa ser cristão. Qualquer pessoa que queira debater o Cristianismo ou falar sobre os cristãos, seja para concordar com eles ou para criticá-los deve ler esse livro.

Confissões de Agostinho


Agostinho de Hipona conhecido como Santo Agostinho era um jovem como qualquer outro jovem de sua época, vivia uma vida hedonista, e até se converter ao cristianismo, Agostinho se interessou por diversas filosofias e religiões. Aos 32 anos se converteu ao Cristianismo. Escritas dez anos após sua conversão, as Confissões são, ainda hoje, modelo de narração autobiográfica. Uma autobiografia recheada de citações meditadas das Escrituras e de reflexões filosóficas revela a alma inquieta de Agostinho. Ele tinha uma busca sincera e intensa de encontrar a verdade definitiva, absoluta, tinha uma imensa sede de saber. As Confissões revelam o pensamento de um homem que antes tinha devotado sua vida aos prazeres e agora revela a profundidade dos problemas da existência humana, mostra um coração corrompido e principalmente arrependido, um ser humano a procura de Deus. O próprio título indica o propósito da obra, confessar seus erros, pecados e a necessidade de uma vida submetida ao Senhor. Quando li essa obra, já convertida, me identifiquei em algumas coisas, pois me converti já na fase adulta como ele, tive uma visão hedonista da vida, e então tal como o santo vivia em busca da Verdade, enfim reconheci que minha vida pertencia ao Cristo ressurreto. Uma pessoa que se declara cristã não pode deixar de ler esse livro, essencial. 

 "O que sei, Senhor, sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua Palavra, e te amei.[...] Tarde Te amei [...] Tu me chamaste, gritastes por mim, e venceste minha surdez. [...] O homem, partícula de Tua criação, deseja louvar-Te. [...] Porque nos fizeste pra Ti e nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Ti."


Em busca de Sentido


Em Busca de Sentido é um dos melhores livros que já li, escrito por Viktor Emil Frankl, nascido em Viena, passou por uma das experiências mais terríveis que o ser humano já experimentou: viveu nos campos nazistas.
O livro retrata suas experiências como um detento dos campos de concentração e descreve seu método psicoterapêutico de como encontrar uma razão para viver.  Apesar do horror vivido, foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo. Mas foi maior ainda naquela dimensão que só Deus pode medir: na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a Terra.  Homem de ciência, neurologista e psiquiatra, não foi o estudo que lhe revelou esse sentido. Foi essa terrível experiência do campo de concentração. Milhões passaram por essa experiência, mas Frankl não saiu dela carregado de rancor e amargura. Saiu do inferno levando consigo a mais bela mensagem de esperança.  Uma mensagem que se baseia na decisão pessoal: Frankl entrou no campo firmemente determinado a conservar a integridade da sua alma, a não deixar que seu espírito fosse abatido pelos seus carrascos, conservou o autodomínio e a sanidade pois tinha um forte senso de dever, de missão, de obrigação.  O segredo dessa força diante da privação da dignidade humana, era ter um sentido para a vida, suportar o sofrimento só era possível porque sabia que tinha uma missão a cumprir.  Frankl tinha três razões para viver: sua fé, sua vocação e a esperança de reencontrar a esposa. Ali onde tantos perderam tudo, Frankl reconquistou não somente a vida, mas algo maior que a vida. Após a libertação, reencontrou também a esposa e a profissão, como diretor do Hospital Policlínico de Viena.  Ele registra uma das experiências interiores que o levaram à descoberta do sentido da vida:  

 "Um pensamento me transpassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora cantada por tantos poetas, proclamada como verdade derradeira por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. […] Pela primeira vez em minha vida, eu era capaz de compreender as palavras: 'Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita'."


Das reflexões de Frankl sobre a experiência do absurdo da falta de sentido da vida, nasceu um dos mais impressionantes sistemas de terapia criados: a logoterapia.
Frankl dizia: "O homem pode suportar tudo, menos a falta de sentido."
O sentido da vida simplesmente existe: trata-se apenas de encontrá-lo.


Obs: esse texto é uma releitura do texto do Olavo de Carvalho 
http://www.olavodecarvalho.org/semana/199711bravo.html