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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Compaixão é fortaleza

 


“A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar-se. [...] O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; [...] em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza […] O que é bom? Tudo o que eleva o sentimento de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem. [...] O que é mau? Tudo o que vem da fraqueza. O que é mais nocivo do que qualquer vício? A ativa compaixão por todos os malogrados e fracos – o cristianismo. [...] O cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco [...] O cristianismo é chamado de religião da compaixão. A compaixão se opõe aos afetos que elevam a energia do sentimento de vida: ela tem efeito depressivo. [...] A necessidade da fé, de um sim ou não, é uma necessidade de fraqueza.”

Essas são palavras de Friedrich Nietzsche no livro “O anticristo” e confesso que a primeira vez que li fiquei admirada por ver uma virtude cristã colocada como fraqueza. Porém, pensando bem, em certo aspecto é uma fraqueza mesmo. A compaixão amolece o coração embrutecido, um coração de pedra normalmente não se compadece.

A beleza da compaixão é justamente ser contagiosa como o próprio autor menciona, quando demostramos compaixão o coração de pedra amolece, perde um pouco da presunçosa “potência”, o sofrimento é compartilhado.

A compaixão é tão bela quanta dolorosa.

A compaixão fortalece vínculos, amor, a  fé e a esperança.

A compaixão é a fraqueza que me fortalece.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Transcendentais

 


Quando estava no ginásio (atual fundamental II) era agnóstica, uma das minhas amigas inseparáveis era religiosa e vez por outra conversávamos sobre fé e religião.

Certa vez ela me questionou o motivo de não acreditar em Deus. Eu respondi discorrendo sobre o problema do mal (guerras, fome e a maldade humana), ela falou sobre a beleza da criação; o céu, o mar etc.

Respondi que essa beleza era nosso prêmio de consolação diante de um mundo mal.

Veja bem, eu não neguei a beleza.

Não há quem possa negar a beleza da criação; seja você de qualquer religião, ateu ou agnóstico, a beleza é algo objetivo, não subjetivo. A verdadeira beleza não está nos olhos de quem vê, mas no objeto que é belo.

Não é possível negar que um pôr do sol alaranjado numa praia seja belo, ou que a visão de uma cachoeira de 10 metros caindo num lago de águas cristalinas também não seja bela.

A beleza real é aquele que agrada a todos, independente de sexo, classe social, cultura ou qualquer outra coisa; como diz Tomás de Aquino.

Mas claro que na época não atribuía ao Senhor a beleza, pois ainda não conhecia a Beleza.

Para quem não crê em Deus é difícil explicar tanta beleza num mundo tão mal.

E foi assim minha primeira reflexão sobre a beleza, extremamente rasa.

Retornei essa reflexão após me converter. Descobri que o autor da beleza era a própria Beleza, como me ensinou Agostinho.

Sempre gostei de arte e me questionava o motivo de algumas causarem "assombro" e outras não. Algumas obras de arte chegava me causar ojeriza. Como arte e beleza são coisas associadas pelo imaginário popular, deduzi que a arte obrigatoriamente deveria ser bela.

Há alguns anos comecei a investigar essa associação, estudar a beleza em sua essência.

Descobri o que já estava em meu interior, aliás, o que todos já sabem por natureza, mas a cultura, a educação etc. ofuscou.

"A beleza é o esplendor da verdade"

O bom, o belo e o verdadeiro são trigêmeos.

Não há beleza na maldade, não há beleza na mentira.

Aprendemos isso desde cedo, quando nossos pais dizem que “mentir é feio", aprendemos que a maldade é feia quando uma menina chama o garoto de "feio" por ter feito algo ruim.

Os contos de fadas confirmam quando colocam os vilões como feios e os "mocinhos" como pessoas belas.

“A Bela e a Fera” tem uma dinâmica interessante. A Fera antes de virar fera, era um príncipe bonito, mas deixa seu coração se corromper e se torna mau/feio, se transforma em fera (isso me lembra da besta fera).

Bela como o próprio nome diz, é bela e bondosa.

A beleza, a verdade e a bondade caminham juntas.

Há muito mais pra se dizer sobre o assunto. Esse texto é apenas uma introdução para quem nunca pensou nessa associação.

O bom, o belo e o verdadeiro.

 


sexta-feira, 22 de março de 2019

Singularidade



Não quero ser outra
Não quero... 
Ser a próxima Nancy Pearcey na teologia.
Nem fazer poesia à la Adélia Prado
Ou ser filósofa tal Hannah Arendt
Não desejo escrever romances como Jane Austen
Não quero ser outra Flannery O'Connor
Não quero ser mais uma Carolina de Jesus
Não tenho pretensão alguma de alcançar essas mulheres incríveis.
Quero ser apenas eu
Ser citada sem comparações
Ser a Márcia Pinho

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Suicídio: Por que você não se mata?




“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. Albert Camus

Essa é uma questão filosófica, que envolve o sentido da vida. Toda pessoa deveria pensar e responder essa pergunta. Todos os dias pessoas cometem suicídio. As razões são diversas; perda do trabalho, crise financeira, luto, doenças, crise afetiva amorosa. Por alguma razão o peso da vida se tornou insuportável, não enxergando mais motivos para viver ou por não conseguir uma maneira de superar os problemas, vê-se a morte como uma solução, a única saída para o absurdo da vida. Uma das razões mais comuns para o suicídio é a depressão.

Transtorno e sofrimentos psicológicos parecem se espalhar pelo ar nos nossos dias, como um vírus que contamina a vida moderna. Nossas dores se multiplicam e ganham nomes, centenas de nomes. E organizações de saúde já falam em uma epidemia de depressão. Ela é um demônio que não nos deixa levantar, que nos espreita ao meio dia, que caminha ao nosso lado como uma sombra. O que não muda nunca é o sofrimento humano, mas em um mundo hedonista não há espaço para as angustias, coisa de gente mal resolvida. Falar de melancolia é falar da dor humana e do sentido da vida.
                                                                              Luiz Felipe Pondé




O suicídio é um assunto bastante delicado e um tabu, repleto de opiniões divergentes. Há quem diga que a pessoa que tira a própria vida é covarde, fraco por não continuar lutando. Há quem diga que o suicida é corajoso por ir contra a natureza humana de preservação da vida. Não creio que essas visões abarcam a totalidade da questão. Durante muito tempo pensei em escrever sobre o assunto, sem saber como dissertar sem me expor, acho que não sei escrever sem ser autobiográfica.
Certa vez um amigo me perguntou: “Você acredita em milagres?”.
Minha resposta: “Minha vida é um milagre, toda a minha vida é um milagre. Eu vivo de milagres.”.
Poucas pessoas conhecem minha história, gostaria de contar tudo o que vivi e tornar públicas as minhas experiências. Talvez ainda não seja o momento. Por enquanto vou dando “spoilers”. Acredito no poder do testemunho e tornarei pública minha experiência com o suicídio.
A tristeza se fez presente muito cedo em minha vida, tinha uma personalidade melancólica, pessimista e cética; quase um Schopenhauer de saia.
Por volta dos doze anos de idade, eu tentei me matar. Já era um pensamento  recorrente, mas não sabia como colocar em prática.
Prestando atenção nas reportagens sobre artistas que morreram de overdose descobri que muitas dessas overdoses envolviam uma mistura de drogas/remédios com álcool. Foi nessa época que li o relato do Marcelo pela primeira vez, o autor conta em “Feliz Ano Velho” que tentou o suicídio, como bem sabemos sua tentativa não deu certo. Mas comigo daria, pensei.

“Que loucura, o que está acontecendo? Eu aqui deitado, sem poder me mexer. Essas pessoas que nunca tinha visto antes, esse lugar, o que é tudo isto afinal? A única certeza que tenho é de que estou vivo e muito lúcido. Consigo me lembrar perfeitamente do acidente, do meu passado, de tudo, enfim. Minha cabeça está a mil por hora e eu aqui paralisado: não poderia ter acontecido algo tão sério assim, será?”[...] Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava passando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali deitado, e era eu que estava desejando minha própria morte. Mas nem disso eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca. Foi o que eu prometi a mim mesmo. “Se eu não voltar a andar, darei um jeito qualquer pra me matar.” Era bom pensar assim. Eu não tinha medo de morrer. Era muito mais fácil a morte que a agonia daquela situação.
Marcelo Rubens Paiva


Numa noite antes de dormir, fui até a caixa de remédios dos meus pais e peguei vários comprimidos, não entendia nada de medicamentos e não fazia a menor ideia do que estava pegando. Tomei os comprimidos junto com um copo de aguardente, a famosa pinga 51.  Deitei-me achando que morreria enquanto dormia e no dia seguinte amanheceria sem vida.
Quando acordei no dia seguinte, a primeira coisa que pensei foi: "Droga! Não morri!" e "Nem pra morrer eu presto!”.
Nunca mais tentei acabar com a minha vida, mas pensei inúmeras vezes.
Anos mais tarde descobri que os remédios que eu havia tomado eram homeopáticos e, portanto não tinham o poder de matar. Uma das coisas mais ridículas da minha biografia com certeza. Minha história com o suicídio não termina aqui, ainda.
Já adulta fiz trabalho voluntário numa ONG de prevenção ao suicídio. Coincidência?
Trabalhei mais ou menos 10 anos e ouvi coisas inimagináveis. Protegidas pelo anonimato, as pessoas não tinham receio algum e rasgavam seus corações para os voluntários.  Um trabalho que me fez adentrar no mundo daqueles que perderam a vontade de viver, caminhando com suas dores, consegui sentir melhor os dois lados da moeda, isto é, a vontade de partir ao mesmo tempo, o desejo de ficar. O fato de conhecer tão bem o drama de quem não quer mais viver, me fez valorizar mais a vida. A verdade é que eles não queriam de fato morrer, queriam deixar de sofrer, acabar com a dor.
Não pensei em tirar minha vida durante muito tempo, até ser atingida por uma tragédia, de fato.  No auge da vida adulta sofri um grave acidente de trânsito. Era independente, trabalhava, fazia faculdade, tinha uma vida social ativa e em menos de um segundo tudo mudou. “Feliz Ano Velho” foi relido, teve um efeito catártico. 
Após meses imobilizada numa cama, meses de fisioterapia, sofri também as consequências psicológicas. Tive quatro doenças simultâneas: estresse pós-traumático, depressão, transtorno de ansiedade e de despersonalização.  Tudo junto e misturado. 
 Então o pensamento de morte voltou, era uma ideia extremamente atrativa diante do que estava vivendo.

Em meio ao tratamento psicológico, fui liberada para voltar ao trabalho pelo médico da Previdência Social.
Durante certo tempo tentei descrever a sensação de ter perdido a si mesmo, de se ter um buraco negro dentro d’alma. Eu que gosto tanto de palavras fiz um esforço para que alguma coubesse em minha Ausência. Esmiucei o dicionário, acabei com o estoque de adjetivos para tentar qualificar meus sentimentos, nenhum vocábulo foi suficiente para descrever meu estado. A dor que eu sentia era inominável!
Todos os dias eu ia trabalhar usando o metrô, e era na espera pelo trem que a ideia de morte batia mais forte. Ouvia uma voz que dizia: “Vai, se joga na frente do trem, será rápido e indolor, é morte instantânea, acaba de uma vez com essa dor.”.
Era uma tortura. Todos os dias enquanto aguardava o trem, essas palavras se repetiam na minha cabeça. Dia após dia, Vida e Morte travavam uma guerra no meu íntimo.
Mas todos os dias a Vida ganhava, o Espirito Santo me lembrava de todas as vezes que vi a Morte face a face, e uma voz dizia: “Você sobreviveu até aqui, escapou várias vezes, tem uma razão para continuar vivendo, você tem uma missão a cumprir, Ele te chamou, continue lutando.”.
Pensava em Cristo, na minha salvação espiritual e quem sabe a salvação física fazia parte também? Por que não morri no acidente? Por que não morri das outras vezes que minha vida ficou por um fio? Deve haver uma razão para ter sobrevivido. E se realmente não é minha hora? E se mais uma vez eu sobreviver?
Cheguei à conclusão definitiva que não sou dona de mim. Minha vida não me pertence. O Senhor a comprou com Seu sacrifício na Cruz. É Ele quem decide quando e como partirei. Não devo, não posso e não quero ir contra o Dono da minha vida.
Por que eu não me mato?
Sei que meu Redentor vive e a esperança é a âncora da minha alma.
Sei principalmente que não existe vida fora da Palavra.

P.S: aos que sofrem com dores da alma, aos que pensam em não mais viver: continue lutando! Sua vida vale muito mais do que imagina.


domingo, 13 de maio de 2018

Ausência: a falta que nos move



A ausência nos diz o que é importante na vida.
Tem coisas que a gente só lembra quando falta.
A saúde é uma delas.
A saudade também só existe porque falta.
Falta algo ou alguém que gostamos.
Escravidão é falta de liberdade.
O pecado é uma forma de escravidão.
Toda falta produz um algo. 
A falta de amor produz carência afetiva
A falta de dinheiro produz carências materiais.
A falta de consciência produz irresponsabilidades.
Toda falta produz uma ausência.
A ausência é a falta que nos move.
O que é que te falta?
Qual é a sua ausência?
Qual é a sua busca/O que te move?

quinta-feira, 29 de março de 2018

Culpa e autorresponsabilidade



Culpa é um termo bastante antigo, já autorresponsabilidade está na moda.  São termos próximos, procurando pela definição de ambas as palavras, encontrei:

Culpa se refere à responsabilidade dada à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem. Já o sentimento de culpa é o sofrimento obtido após reavaliação de um comportamento passado tido como reprovável por si mesmo. A base deste sentimento, do ponto de vista psicanalítico, é a frustração causada pela distância entre o que não fomos e a imagem criada pelo superego daquilo que achamos que deveríamos ser ou fazer.

Autorresponsabilidade é a capacidade racional e emocional de trazer pra si toda responsabilidade por tudo que acontece em sua vida, por mais inexplicável que seja, por mais que pareça estar fora do seu controle e das suas mãos. É o dever de arcar com as consequências do próprio comportamento.

Viver é jogar o jogo da responsabilidade ou da culpa, como queira. As relações sociais estão permeadas por esse jogo.
O tempo todo, as pessoas estão procurando quem culpar, em quem jogar a responsabilidade. Desde crianças com o famoso “Quem começou foi ele!” E segue o jogo, indefinidamente. Até quando?
Recentemente tive algumas conversas que evidenciaram esse jogo. 
Percebi que eu sou aquela que pede desculpas/perdão e assume a culpa/responsabilidade até mesmo quando sou a parte prejudicada da história. E isso não é discurso vitimista, o fato é que eu aprendi que a culpa era sempre minha. Ouvi a vida toda que:
Se alguém me fez de trouxa é porque eu permiti;
Se fui alvo de enganação é porque eu fui ingênua;
Se alguém me traiu é porque eu confiei em quem não devia;
Se perco uma amizade é porque eu pisei na bola;
Se meu namorado me traiu é porque eu dei bobeira,
Se algo ruim me aconteceu é porque eu fiz algo para merecer.
E assim a mensagem implícita é: “Não reclame daquilo que você permite”.
Não tenho o direito de lamentar minhas mazelas, de chorar minha “má sorte” ou de cobrar nada de ninguém; afinal sou a culpada.
Aceitei que sou 100% responsável pelo o que me acontece, ainda que seja algo que esteja completamente fora do meu controle.
A ausência de um bode expiatório é pesada demais.
E assim carrego o que me foi imposto.
Tudo o que me acontece é problema meu. E ninguém me deve nada.
Conclusão: a vida em sociedade se resume em “ema, ema, ema, cada um com seus problemas”.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Tarde te amei




Tarde te amei.
Tarde reconheci minha miséria e Tua Glória.
O Esplendor estava-me oculto.
Tarde te amei.
Bem tarde!
Quando revelou-Se a tão pobre criatura.

Como não enxergar a Beleza?!
Os espinhos da vida sufocavam Tua Palavra.
Estava cega.
Não sei se pelo Mundo ou por Kairós.

Experimentei da minha própria miséria antes de conhecer Tua Graça.
Se não fosse assim...
Como O reconheceria?

Tarde te amei.
Após longo período de incredulidade.
Te amei ...
Te amei ...

Chega de pretérito!
Te amo.
Te amarei.
Por toda a eternidade
Tu serás adorado.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A pessoalidade do bebê



Sei que pode parecer irreal, mas um bebê me deu uma lição de moral e  confirmou o que já conhecia em teoria, o bebê é uma pessoa. Como é lindo vivenciar o que tanto li em livros de filosofia e teologia, uma experiência que reafirmou a dignidade ontológica do ser humano.
O Titi tem um ano e meio, é um bebê adorável e bem educado.  A fala dele está em desenvolvimento, isto é, ainda não pronuncia palavras inteiras. Vejo o Titi uma vez por semana e gosto muito de brincar com ele.
Entre uma brincadeira e outra, às vezes faço alguma provocação como tirar a chupeta ou pegar alguma coisa com a qual ele está brincando. A provocação tem o intuito de chamar a atenção e interagir, principalmente quando ele está mais quietinho.  Existe certo prazer em provocá-lo e observar sua reação em diferentes situações.
Um dia, enquanto ele ficava de um lado para o outro com um habitual copo de plástico, fiz mais uma provocação. Sua mãe deixa em suas mãos um copinho descartável com biscoitos de polvilho, creio que é uma maneira de distrai-lo e ao mesmo tempo impedir que ele peça/pegue outras coisas para comer (só acho).
Cheguei e peguei de surpresa um biscoito do copinho, coloquei rapidamente na boca e fiquei mastigando bem na sua frente.  O Titi apesar de não falar, é um bebê extremamente expressivo, você sabe exatamente o que ele “pensa” por meio da expressão facial.
Nesse momento, enquanto mastigava o biscoito que peguei do seu copinho, ele me olho feio, fez uma cara em que dizia: “Sua mal educada, quem você pensa que é pra meter a mão no meu copinho e roubar meu biscoito?”.
Em seguida colocou o dedinho em minha boca na tentativa de pegar de volta seu biscoito, como quem diz “devolve, é meu!”.
O que era pra ser uma mera provocação se tornou uma lição, vou explicar.
Normalmente as pessoas tem o hábito de tratar os bebês como se fossem objetos/ bonecos; beija, aperta, põe chupeta, tira chupeta, brinca, faz careta, pega no colo, rodopia; enfim tratamos os bebês e esquecemos que são pequenos seres humanos.
Como ser humano, um bebê também tem vontades, desejos, limites, é capaz de pensar (conforme suas limitações), comunicar, possui consciência moral e emoções, entre outras coisas.
Ao negligenciar isso estamos negando a dignidade do bebê como ser humano.
O Titi deixou claro que não gostou da minha atitude, ultrapassei os limites ao pegar o biscoito sem sua permissão. Fiquei com a consciência pesada, me arrependi, pois sabia que tinha agido mal; afinal eu não faria a mesma coisa com um adulto, então também não deveria fazer com um bebê.
O Titi não é uma criança egoísta, do tipo que se recusa a repartir o brinquedo ou dividir o que está comendo, por essa razão ficou muito claro que ele “brigou” comigo pela atitude invasiva e não pelo biscoito em si. Ele já tem noção de limites, de certo e errado.
Tentei me retratar, algum tempo depois fiquei brincando de um jeito que sei que ele gosta e o levei para “passear”.  Ele (acho) esqueceu minha falta de educação e além de brincar, me deu seus biscoitos sem que eu pedisse.  
O pior é que não é a primeira vez que sou invasiva com ele; certa vez ao cumprimenta-lo, agarrei-o e beijei-o sem que ele estivesse disposto. Resultado: se afastou e me olhou bem feio com direito a careta.
Espero ter aprendido a lição e levar mais a sério a pessoalidade do Titi e de todos os bebês.
Logo eu!


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Teologia do autoconhecimento



Conheci a expressão “Teologia do autoconhecimento”[i] no livro Inteligência Humilhada, onde o autor Jonas Madureira dedica um capítulo para tratar desse assunto.
O autoconhecimento é essencial para o “ser cristão”.  Muitos cristãos infelizmente menosprezam a psicologia, mas antes de ser uma ciência, a psicologia pura e simples é um encontro com Deus.
Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão). Psicologia poderia ser compreendida então como o "estudo da alma" ou a "compreensão da alma". [ii]
Como cristã creio que não existe melhor “compreensão da alma” do que “ver” Jesus Cristo. Sei que tal afirmação só pode ser compreendida por aqueles que “experimentaram” Deus em suas vidas. Não tenho a pretensão de ser compreendida por todos, e nem é possível.
Antes da minha conversão ao Cristianismo, me interessava por Psicologia, estudei por conta própria durante anos. Queria entender a razão de ser como era, queria saber o motivo de como certos eventos me afetavam, queria me conhecer. Também gostava de Filosofia, li Platão, Aristóteles e Sócrates; minha sede por autoconhecimento foi aumentando. A Psicologia e a Filosofia faziam um belo casal, eu acreditava que poderiam me dar as respostas que a religião não me dera anteriormente (frequentei a Igreja Católica na infância e adolescência).
Por conta dos dilemas existenciais e das feridas emocionais procurei psicoterapia, durante alguns anos foi benéfico. Cheguei a declarar que a Psicologia havia me salvado, e de fato naquela época foi uma solução paliativa, aliviou parte de meu sofrimento.
Mas o conhecimento do meu ser interior mesmo só chegou quando tive um “encontro pessoal com Deus”. (Algumas expressões só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que “nasceram de novo” pelo Espirito Santo). Em todo caso, tentarei explicar.
Segundo o reformador Calvino:

... O homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão Dele examine a si próprio. Ora, por causa do orgulho, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, íntegros, sábios, santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça e indignidade. [...] uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. [...] Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele, e quão completa a perfeição de sua justiça [...] Quando, pois, manifestando Ele sua glória, caímos de tão abalados, prostrados como pelo pavor da morte, e quase aniquilados, conclui-se que o homem não é jamais afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.[i]



Nomeio esse pensamento de Calvino de “teoria do espelho reverso”. O espelho é um objeto que reflete a nossa própria imagem. Num encontro com Deus, Ele é o espelho reverso. De frente ao Espelho não se vê de imediato a própria imagem, mas sim a imagem de Deus. Vemos toda a sua Glória, Majestade, Soberania e Santidade. Esses atributos espelham em nós e revelam a nossa imagem, uma espécie de bate e volta. Eu vejo Deus e sua imagem reflete/revela a minha própria imagem. Então nesse momento, em frente ao Espelho eu vejo duas imagens simultaneamente, a Santidade de Deus e a minha miséria, de forma proporcional. Deus é tão santo, quanto eu sou miserável pecador. Só reconhecemos a medida de nossa pecaminosidade diante da Santidade Dele.
É desse momento em diante que começa a santificação, um processo que ocorre após me enxergar através Dele e conhecer o mal que habita em mim. Saber quem sou eu e quem é Deus fez com que eu buscasse a santidade, ao me conhecer de fato e conhecê-Lo, o desejo de não ser mais quem sou e sim me tornar mais parecida com Ele, tomou conta do meu ser.
Em Crônicas de Nárnia, há uma alusão a esse processo:

Não vou contar como virei dragão, mas vou lhe dizer como deixei de ser dragão. (...) Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. [i]



Assim como Eustáquio/Dragão estamos em mutação, agora que sabemos que somos “dragão” deixamos que Ele, o Leão arranque nossas camadas. Permitimos ser feridos por Suas unhadas, uma ferida que dói e cura ao mesmo tempo. A cura acontece quando deixamos que Ele arranque nossa pecaminosidade, nossas falhas de caráter. Ah como dói abrir mão do nosso “eu”! Mas à medida que a pele (“eu”) é arrancada, nossa verdadeira identidade é recuperada (“imago dei”).
Agostinho de Hipona, o santo queridinho dessa que vos “fala”, sentiu essa ferida e deixou em seu “diário” o relato:

“Feriste-me o coração com a tua palavra, e desde então te amei.”[v]


Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[vi]

Para resumir:
“Sem o autoconhecimento não existe Cristianismo”. [vii]


Referências bibliográficas:




[i] MADUREIRA, JONAS, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017).

[iii]  CALVINO, JOÃO, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1 Edição clássica Cap. I: 1 p.47,48 (Paráfrase minha).

[iv] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia/A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 2009), p.450-1.

[v] AGOSTINHO, Confissões (São Paulo: Paulus, 1997). Livro X, 6:8

[vi] AGOSTINHO. Confissões (São Paulo: Paulus, 1997) Livro X, 27:38 (grifo meu).

sábado, 23 de setembro de 2017

Identidade


As pessoas estão o tempo todo nos dizendo como devemos ser/estar, o que pensar e o que sentir também. Se seguirmos corremos o risco de virar um Frankenstein, um ser com pedaços de outras pessoas.
Infelizmente muitos ainda não conseguem distinguir o “eu” do “tu”, o conceito de alteridade não é bem conhecido e isso traz a tendência de querer colonizar o outro. Transforma-lo à sua imagem e semelhança. Então perdemos nossa pessoalidade, somos roubados de nosso “ser”.
“Ser” é uma das guerras que a vida nos impõe.
A covardia existencial e uma dose de preguiça nos leva a se conformar com o que não deveria. Não se deixar levar pela maré das expectativas alheias requer coragem, requer um levante àqueles que esperam que sejamos outro.
Uma batalha constante aos que nos dizem como agir ou como pensar. Granadas contra os julgamentos precipitados, bombas em direção as etiquetas que nos são pregadas o tempo todo. Uma luta permanente contra as projeções, contras as idealizações e expectativas em relação a nossa pessoa.
Sua identidade está sendo fortalecida cada vez que não permite ser roubado em seu direito de ser quem é. Confesso que nem sempre tenho essa coragem, muitas vezes tenho preguiça em esclarecer “olha não foi isso que eu quis dizer” ou “a minha intenção era outra ao fazer tal coisa”, esse negócio de ficar se explicando não é comigo. Certa vez ouvi de uma amiga: “quando você não esclarece, eu tenho o direito de pensar o que quiser” Quer pensar errado? Pois que pense. De um jeito meio torto, essas situações acabam selecionando os amigos. É muito desgastante ter que explicar o tempo todo, suas ações e palavras. Por isso procuro escolher com critério as situações que devem ser esclarecidas, situações que coloquem em jogo minha identidade ou relações muito preciosas. Porque eu bem sei que nem sempre sou o que os outros pensam. E a única coisa que posso dizer às pessoas que me idealizam é: sinto muito. Simplesmente não posso deixar de ser quem sou em favor do que os outros pensaram ou que gostariam que eu fosse.

Eu sou o que sou.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Cegueira ideológica


Era uma vez uma pequena sociedade composta por:
1 petralha
1 coxinha
1 feminista
1 machista
1 antifeminista
1 homem cis homo
1 mulher trans homo
1 nazista
1 fascista
1 bolsominion
1 esquerdopata
1 indiano
1 xenófobo
1 mulher hétero
1 homem hétero
1 crente
1 ateu
1 macumbeiro
1 negro
1 branco
1 pardo
1 racista
1 criança
Será que esqueci alguém?
Eles viviam em constante guerra até o dia em que algo estranho aconteceu.
Uma forte luz sobreveio sobre eles e ficaram cegos por alguns dias, no lugar dos olhos foi se formando uma camada grossa de pele dura, como escamas.
Aos poucos as escamas foram caindo, lentamente uma a uma. Eles foram abrindo seus olhos e então não havia mais nenhum cidadão conhecido.
O número de habitantes era o mesmo, mas estranhamente todos se perguntavam:
“Onde está o nazista?”
“Cadê o crente?”
Até que viram a criança, ainda a mesma, eles a reconheceram.
Mas o que aconteceu com os outros?
Não havia mais o petralha, nem o coxinha, nem o fascista, nem o xenófobo.
Reuniram-se para tentar descobrir o que havia acontecido.
Logo no inicio, um deles falou “Eu era cego, e agora vejo!”.
E todos aplaudiram dizendo: “Eu também, eu também!”.
Alvoroço total durante alguns minutos, Depois voltaram ao questionamento original. Onde estão os antigos habitantes?
Um deles falou: “Eu era ateu e vivia implicando com o crente, mas agora não tem mais com quem implicar”.
Outro respondeu: “Eu sou o crente, achei que o ateu não estava mais aqui.”.
E um a um eles foram se reapresentando: “Eu sou o que foi apelidado de macumbeiro, eu sou aquele que chamavam de nazista”, e assim seguiu até que todos falassem.
E no final, eles perceberam o que tinha acontecido. Cada habitante não enxergava mais o outro conforme conhecia antes, por isso não se reconheciam um ao outro. Cada um sabia quem era, porém não sabia mais quem era o outro antes da Luz.
E mesmo depois da reapresentação, cada um via o outro apenas como um ser humano. A antiga identidade não fazia mais sentido. Tudo parecia novo.
E outra dúvida surgiu: Porque só a criança é a mesma, quer dizer por que só a reconhecemos e os outros não?
A criança era a única que via todos em sua essência: humanos.

Quem tiver ouvidos, ouça.