sábado, 19 de novembro de 2016

A dor de existir


Na infância achava que viver era muito doloroso, ainda acho.
Refugiei-me nas Letras, em meus diários e nos livros. Escrever, ler, escrever; uma coisa como consequência da outra, e não me pergunte o que veio primeiro ou qual mais importante. Ler e escrever são as duas faces da mesma moeda.
Vivia num mundinho à parte, às vezes acho que era uma espécie de "autista"; socializava com todos, mas tinha/tenho um mundo só meu e nesse quase ninguém entra(va). Descobri que era o esconderijo perfeito para a dor, uma possibilidade de continuar existindo apesar do mundo cão à minha volta.
Meu diário era cheio de questões, procurava respostas nos livros, ainda procuro. As Letras me permitiram saber coisas das quais não saberia de outra forma.
A dor de existir era tão grande que parecia ser uma parte de mim como um membro defeituoso, por vezes ela extravasava. Então escrevia…. como forma de fugir da realidade, para continuar existindo.
A literatura me adotou e como dizem os filósofos a arte representa um paliativo para o sofrimento humano.
Essa dor que sabe-se lá de onde vem e não sei quando vai embora estava/está presente o tempo todo. Ao acordar, enquanto caminho para a escola/trabalho/faculdade... Continua a cada respirar.
Enquanto caminho só, sinto seu peso, esmagando minha alma.
Por vezes, me distraio e a esqueço. E por alguns instantes sou feliz, ah quem me dera!
Quando converso de forma profunda com uma amiga íntima. Quando contemplo a Beleza, são vislumbres de uma terra da qual sou turista.
E logo vem ela, a Grande Tristeza com seus dentes afiados me morder novamente. E arranca de mim a força que não tenho para continuar.
O mundo exige coisas que não possuo, talvez nunca possua. Mas desistir não é uma opção.
E a dor vai se metamorfoseando, ora vira vazio, ora melancolia, por vezes doença. Cada dia uma coisa. E nesses intervalos, entre brechas, ela me permite viver.
Quando a Grande Tristeza sai para um passeio, penso que já senti tudo o que tinha pra sentir, e de agora em diante serão apenas porções menores do que já vivi. Nada novo debaixo do sol, como diz o pregador.
Os monstros e fantasmas que me habitam saem para passear, vão tomar um banho de sol, assombrar outras almas.
E a vida que parecia lago, torna-se rio em direção ao mar.
E esse mar que nunca alcanço!
E essa vida como ferida em carne viva!
Sei que meu Redentor vive e a esperança é a âncora da minha alma.
Sei principalmente que não existe vida fora da Palavra.

Nenhum comentário: