sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Teologia do autoconhecimento



Conheci a expressão “Teologia do autoconhecimento”[i] no livro Inteligência Humilhada, onde o autor Jonas Madureira dedica um capítulo para tratar desse assunto.
O autoconhecimento é essencial para o “ser cristão”.  Muitos cristãos infelizmente menosprezam a psicologia, mas antes de ser uma ciência, a psicologia pura e simples é um encontro com Deus.
Psicologia deriva das palavras gregas "psyché" (alma, espírito) e "logos" (estudo, razão, compreensão). Psicologia poderia ser compreendida então como o "estudo da alma" ou a "compreensão da alma". [ii]
Como cristã creio que não existe melhor “compreensão da alma” do que “ver” Jesus Cristo. Sei que tal afirmação só pode ser compreendida por aqueles que “experimentaram” Deus em suas vidas. Não tenho a pretensão de ser compreendida por todos, e nem é possível.
Antes da minha conversão ao Cristianismo, me interessava por Psicologia, estudei por conta própria durante anos. Queria entender a razão de ser como era, queria saber o motivo de como certos eventos me afetavam, queria me conhecer. Também gostava de Filosofia, li Platão, Aristóteles e Sócrates; minha sede por autoconhecimento foi aumentando. A Psicologia e a Filosofia faziam um belo casal, eu acreditava que poderiam me dar as respostas que a religião não me dera anteriormente (frequentei a Igreja Católica na infância e adolescência).
Por conta dos dilemas existenciais e das feridas emocionais procurei psicoterapia, durante alguns anos foi benéfico. Cheguei a declarar que a Psicologia havia me salvado, e de fato naquela época foi uma solução paliativa, aliviou parte de meu sofrimento.
Mas o conhecimento do meu ser interior mesmo só chegou quando tive um “encontro pessoal com Deus”. (Algumas expressões só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que “nasceram de novo” pelo Espirito Santo). Em todo caso, tentarei explicar.
Segundo o reformador Calvino:

... O homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão Dele examine a si próprio. Ora, por causa do orgulho, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, íntegros, sábios, santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça e indignidade. [...] uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. [...] Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é Ele, e quão completa a perfeição de sua justiça [...] Quando, pois, manifestando Ele sua glória, caímos de tão abalados, prostrados como pelo pavor da morte, e quase aniquilados, conclui-se que o homem não é jamais afetado suficientemente pelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.[i]



Nomeio esse pensamento de Calvino de “teoria do espelho reverso”. O espelho é um objeto que reflete a nossa própria imagem. Num encontro com Deus, Ele é o espelho reverso. De frente ao Espelho não se vê de imediato a própria imagem, mas sim a imagem de Deus. Vemos toda a sua Glória, Majestade, Soberania e Santidade. Esses atributos espelham em nós e revelam a nossa imagem, uma espécie de bate e volta. Eu vejo Deus e sua imagem reflete/revela a minha própria imagem. Então nesse momento, em frente ao Espelho eu vejo duas imagens simultaneamente, a Santidade de Deus e a minha miséria, de forma proporcional. Deus é tão santo, quanto eu sou miserável pecador. Só reconhecemos a medida de nossa pecaminosidade diante da Santidade Dele.
É desse momento em diante que começa a santificação, um processo que ocorre após me enxergar através Dele e conhecer o mal que habita em mim. Saber quem sou eu e quem é Deus fez com que eu buscasse a santidade, ao me conhecer de fato e conhecê-Lo, o desejo de não ser mais quem sou e sim me tornar mais parecida com Ele, tomou conta do meu ser.
Em Crônicas de Nárnia, há uma alusão a esse processo:

Não vou contar como virei dragão, mas vou lhe dizer como deixei de ser dragão. (...) Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair. [i]



Assim como Eustáquio/Dragão estamos em mutação, agora que sabemos que somos “dragão” deixamos que Ele, o Leão arranque nossas camadas. Permitimos ser feridos por Suas unhadas, uma ferida que dói e cura ao mesmo tempo. A cura acontece quando deixamos que Ele arranque nossa pecaminosidade, nossas falhas de caráter. Ah como dói abrir mão do nosso “eu”! Mas à medida que a pele (“eu”) é arrancada, nossa verdadeira identidade é recuperada (“imago dei”).
Agostinho de Hipona, o santo queridinho dessa que vos “fala”, sentiu essa ferida e deixou em seu “diário” o relato:

“Feriste-me o coração com a tua palavra, e desde então te amei.”[v]


Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[vi]

Para resumir:
“Sem o autoconhecimento não existe Cristianismo”. [vii]


Referências bibliográficas:




[i] MADUREIRA, JONAS, Inteligência Humilhada (São Paulo: Vida Nova, 2017).

[iii]  CALVINO, JOÃO, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1 Edição clássica Cap. I: 1 p.47,48 (Paráfrase minha).

[iv] C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia/A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 2009), p.450-1.

[v] AGOSTINHO, Confissões (São Paulo: Paulus, 1997). Livro X, 6:8

[vi] AGOSTINHO. Confissões (São Paulo: Paulus, 1997) Livro X, 27:38 (grifo meu).

Um comentário:

Unknown disse...

Amém minha irmã! Que palavras profundas! Que Deus Grande!!!