sábado, 18 de fevereiro de 2017

Não sou uma referência


Pessoas que mal me conhecem podem achar que pelo fato de ser cristã, devo ser um exemplo de moralidade, quanto engano!
Estou em constante transformação, buscando ser alguém melhor que ontem.
Ser cristã não me faz uma “santinha”, e é justamente por ser cristã que reconheço minhas limitações e fraquezas.
Foi Jesus quem me mostrou o “mal que habita em mim” e quem de fato eu deveria ser.
♬♮♬♪♫ ♪  “Nos deram um Espelho e vimos um mundo doente” ♬♮♬♪♫ ♪
Diante do Espelho eu enxerguei minha imundície
Diante do Justo vi minha injustiça
Diante do Sagrado soube o quanto era profana
Diante do Belo enxerguei minha fealdade
Diante da Verdade minhas mentiras foram expostas,
Diante da Vida reconheci que estava morta.
Foi então que comecei nO Caminho e ganhei Vida.
Vida essa que é cheia de batalhas. Luto diariamente contra meus desejos egoístas e humanos. Eu sei que enquanto viver estarei numa guerra, às vezes o desânimo vem, mas tenho plena consciência de que a única maneira de viver é essa, lutando contra o pecado. Pois uma vez conhecendo Ele, é impossível se conformar com quem somos.
As cobranças são muitas, externas e internas; não sei quais são maiores.
O meu esforço em tentar praticar boas ações e lapidar meu caráter é tão somente em retribuição a vida que recebi de Cristo e honrar o nome Dele, afinal carrego o “título” de cristã.
É uma super-responsabilidade, quando eu faço coisas ruins não é o meu nome que vai para a lama, é o Dele. Não quero ser vergonha para Aquele que tanto me amou/ama e se deu por mim.
Tento fazer as coisas que O agradam, mas nem sempre consigo, minha natureza pede coisas contrárias ao que Jesus quer.
Não estou escrevendo isso, para ser bajulada, ao contrário. Ser referência é um peso que não sou capaz de carregar, não quero que ninguém se espelhe em mim. Vou decepcionar e sei que posso ser esmagada pelas expectativas alheias. É um fardo pesado demais corresponder ao modelo de pessoa “certinha”, “santinha” “crente” e toda essa imagem de perfeição que as pessoas tem dos cristãos.
O fato de me expor em redes sociais me torna um alvo fácil tanto para as cobranças quanto para ser uma referência de moralidade. Não sou e não quero ser referência, sei que não posso ter êxito nessa empreitada.
A única coisa que eu posso dizer para alguém que quer uma referência é: olhe para Cristo. Ele sim, é o modelo que devemos ser/seguir.
Eu não, sou uma pecadora em processo de santificação, esse processo só terá fim com a minha morte.
Resumindo sou uma “santa pecadora”, dependente da Misericórdia.
E apenas quer ser vista, lembrada como alguém que lutava, só isso.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Despersonalização


Após um grave acidente sofri um autoexílio, fiquei ausente de mim.
Uma forte sensação de não me pertencer se instaurou desde os primeiros dias. Minha mente esqueceu quem eu era. Mesmo após a recuperação física, vivia no automático; trabalhava, estudava, me relacionava, mas era como se não fosse eu que estivesse ali, estava assistindo a minha própria vida. Não conseguia falar sobre isso com ninguém, Como falar de algo que eu não conseguia nomear, identificar?
Durante certo tempo tentei descrever a sensação de ter perdido a mim mesmo. Eu que gosto tanto de palavras fiz um esforço para que alguma coubesse em minha Ausência. Esmiucei o dicionário, acabei com o estoque de adjetivos para tentar qualificar meus sentimentos, nenhum vocábulo foi suficiente para descrever meu estado, de uma condição que me fez estranha de mim mesmo, uma ausência desesperadora do meu eu.
Como se tudo que estivesse acontecendo fosse com outra pessoa e eu estava apenas assistindo. Eu tinha sido arrancada da minha vida, da minha história. Eu era uma espectadora/observadora da minha própria vida, fora da realidade. Era como uma sonâmbula diariamente, mas não apresentava mudanças significativas, por isso a despersonalização passou sem ser notada por todos que me rodeavam.

♪ ♫ ♩ ♫     Restitui, eu quero de volta o que é meu    ♪ ♫ ♩ ♫
  ♫ ♩ ♫  ♪   Sara-me e põe teu azeite em minha dor     ♫ ♩ ♫  ♪

Ciente do meu estado, durante um ano fiz uma pasta para anotar minha vida, como se fosse uma agenda com acontecimentos pessoais e do mundo. Escrevi na primeira página: “O ano que não existi”, e lá coloquei as coisas significativas que me aconteciam e também noticias do mundo. Eu tinha a sensação de não lembrar das coisas, pois eu não me apropriava dos acontecimentos. Tinha consciência que estava vivendo algo surreal e queria ter lembranças quando voltasse a si.
Ainda não sabia o que estava de fato acontecendo, mas sabia que era efeito do trauma do acidente. Sem saber que era uma doença, considerei como temporário, que voltaria ao normal, não procurei tratamento, nem médico nenhum.
Permaneci nesse estado durante um ano e meio, a cura veio de forma gradual, sem tratamentos, e um dia percebi que essa ausência de mim e da minha realidade havia se dissipado. Milagre? Não sei, mas voltei a ser eu mesmo, voltei para minha vida.
Após 4 anos, em um tratamento médico, relatando tudo o que vivi desde o acidente, recebi o diagnóstico: síndrome de despersonalização/desrealização.
Apesar de já curada, fui procurar informações, descobri que se encaixava exatamente na minha experiência. Como nunca tinha ouvido falar nisso? Simples, a gente só se interessa por algo quando faz parte da nossa experiência de vida.
Li relatos de pessoas com a doença e soube de filmes que tratavam do assunto. Apesar de pouco popular, essa doença já atingiu muitas pessoas.
Resolvi contar minha experiência para torná-la mais conhecida, quem sabe assim as pessoas possam identificar e lidar com ela de uma forma melhor. 
O meu caso não foi grave (foi consequência do estresse pós-traumático), li relatos de pessoas que convivem com a despersonalização durante muitos anos. Felizmente fui curada e superei complemente a doença.
Deixo abaixo algumas informações básicas:

Síndrome de despersonalização ou desrealização

Nas áreas da psiquiatria e da psicologia, a despersonalização (CID-9/10) é entendida como uma desordem dissociativa, caracterizada por experiências de sentimentos de irrealidade, de ruptura com a personalidade, processos amnésicos e apatia. Pode ser um sintoma de outras desordens como transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, depressão, esquizofrenia, estresse pós-traumático e ataques de pânico. A despersonalização pode ainda surgir com o consumo de drogas, como Cannabis ou Ecstasy; mas há outras causas: esta pode desenvolver-se devido a uma exposição prolongada a estresse, mudanças repentinas no contexto pessoal, laboral ou social, entre outros fatores. A despersonalização encontra-se intimamente relacionada com a ansiedade. Enquanto desordem isolada, é desencadeada pela vivência de uma situação traumática, como maus tratos (de natureza física ou psicológica), acidentes, desastres. Esta pode ainda despoletar-se no indivíduo se este atravessar um conflito interno insuportável: a mente passa por um processo inconsciente de dissociação - separa (dissocia) conhecimento, informações ou sentimentos incompatíveis ou inaceitáveis oriundos do pensamento (realidade) consciente. Foi descrita pela primeira vez pelo psiquiatra francês Ludovic Dugas.
De acordo com a última edição da DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) a despersonalização surge como uma desordem dissociativa: As características essenciais do Transtorno de Despersonalização consistem de episódios persistentes ou recorrentes de despersonalização, caracterizados por um sentimento de distanciamento ou estranhamento de si próprio. O indivíduo pode sentir-se como um autômato ou como se estivesse em um sonho ou em um filme. Pode haver uma sensação de ser um observador externo dos próprios processos mentais, do próprio corpo ou de partes do próprio corpo. (Fonte: Wikipédia)

Escrevi o texto abaixo antes de conhecer a doença:
https://marciapinho.blogspot.com.br/2013/10/exilio.html

domingo, 15 de janeiro de 2017

Free


Você é livre?
Muitas vezes parece que a gaiola está trancada e estamos presos, mas a gaiola está aberta e mesmo assim continuamos presos. Muitos presos continuam na gaiola por não saber que estão presos ou por estarem condicionados e não sabem como ir para outro lugar, como agir de outro modo.
Aqui apenas um exemplo de algo que prende as pessoas, o cigarro. Mas no lugar do cigarro poderia estar um símbolo fálico, uma ideologia, uma figura, enfim, podemos estar presos a diversas coisas.
Qualquer coisa a qual temos dificuldade em dizer não é uma prisão.
Coisas que nos fazem mal ou farão, um relacionamento, um modo de viver, uma visão de mundo que nos mantém estagnados.
São muitas as prisões da vida e nem sempre estamos conscientes delas.
Nem sempre as prisões se apresentam em forma de vícios como conhecemos (cigarro, bebida, sexo etc), às vezes as prisões estão tão bem disfarçadas que nem nos damos conta.
Você sabe qual é a sua prisão, o que te mantém preso ao mesmo lugar?
Ou você se considera livre?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Egolatria


O egocentrismo é algo tão comum, tão “humano” que já não percebemos quando se tornou um “deus”. Idolatramos o nosso “eu” e distorcemos a realidade em nosso volta em nome desse ídolo que precisa ser reverenciado, muitas vezes à custa dos outros.
Começamos a supor que conhecemos as motivações, pensamentos, caráter e intenções da outra pessoa. Acreditamos em nossa interpretação sobre as ações alheias e isso se torna uma bússola no relacionamento, isto é, tratamos o outro com base em nossa interpretação (nem sempre correta). Alguém demora em responder uma mensagem, então você deduz que a pessoa está chateada com você. Acontece que ela estava impossibilitada de responder na hora. Você chama alguém para sair, e se ela recusa, então você presume que ela não quer sair com você, quando existem motivos pessoais, não relacionados à sua pessoa. Interpreta uma mensagem na rede social como indireta para você e por aí vai. Como se as atitudes das pessoas estivessem sempre relacionadas à sua pessoa. Hellooo! O mundo não gira ao seu redor não!
Não importa qual é a verdade, devemos pensar o que nos leva a julgar os outros de maneira pecaminosa, muitas vezes colocando uma culpa/responsabilidade indevida. E quantas injustiças fazemos baseadas em nossas suposições?!
Os falsos pensamentos que nos levam a julgar os outros são uma forma de orgulho. Cobramos do outro, ainda que em pensamento, aquilo que eu julgo como o certo, exijo do outro uma postura exemplar, afinal eu sou assim (só que não). E meço as ações alheias segundo minha régua de conduta, como se eu mesmo tivesse uma conduta irrepreensível. Pura ilusão!
Não admitimos que o outro cometa aquele pecado que eu também cometo (oculto) e cobramos, veja só que ironia, cobramos do outro aquilo que eu mesmo faço ou tenho potencial para fazer. Afinal “nada do que é humano me é estranho” (Terêncio).
“Nada que desprezamos nos outros está ausente em nós mesmos. Temos que aprender a ver as pessoas menos à luz do que fazem ou não fazem e mais à luz do que sofrem.”
Dietrich Bonhoeffer
Esquecemos que outras pessoas têm suas fraquezas, assim como temos as nossas. E por causa das fraquezas falhamos uns com os outros.
Acabamos sendo carrascos do outro e em consequencia de nós mesmos, estragamos relacionamentos promissores por causa da egolatria.
Queremos que o outro mude, mas não tomamos a iniciativa de mudar nossas posturas. Criticamos o deslize alheio, e somos condescendentes com nossa falta de empatia.
Nos consideramos superiores, afinal, quem errou foi o outro. E quando somos nós que erramos, as nossas justificativas são válidas, somente as nossas!
Desqualificamos o próximo em virtude da supervalorização própria.
Como seguir o mandamento de amar o próximo desse jeito?
A egolatria nos faz pecar contra Deus e contra o próximo.
Não podemos ser santificados enquanto nosso “eu” dominar nossa vida.
O ego nos faz prisioneiros de si mesmo.
O ego nos faz sentirmos ofendidos por qualquer coisa, isto é, é sempre o outro que erra.
E sou eu , o magnânimo que libera o perdão ao vil pecador.
Ofensa = ego ferido
O ego exige estar sempre com a razão.
O ego sente a necessidade de ser sempre o melhor, não podemos estar na média ou abaixo, o que gera uma competitividade tola. 
Enquanto tivermos como prioridade a satisfação do “eu” não poderemos cumprir o mandamento de amar ao próximo como a mim mesmo, pois se esse “amor a mim mesmo” é disfuncional, então é isso que vou refletir nos meus relacionamentos.
Se quer ter relacionamentos sadios, comece pelo seu consigo mesmo.
Se continuar inflando seu ego, ele vai te levar longe… longe das pessoas e de Deus (ainda que mantenha os rituais religiosos).
Um dos nossos piores inimigos é o Ego.
Liberte-se, esvazie-se de si.
Preencha-se de Cristo

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Deus não cabe na Teologia






Querem Te encaixotar
Querem Te enjaular
Querem que Tu caibas na pequena caixa humana
Essa que chamamos de cérebro
Mas como podemos compreendê-Lo
se somos estrangeiros de nós mesmos?
Como podemos chegar ao pleno conhecimento de Ti
quando não conhecemos nossos próprios limites?
O homem é um mistério ao Homem
Só o Senhor nos conhece plenamente
Oh Deus de misericórdia!
Perdoa nossa arrogância em querer ser como Ti
Em querer colocar o Infinito dentro da finitude
Tua Graça nos humilha
Teu amor esmaga nossa lógica
E nos coloca ao pés da Cruz
O lugar mais alto que podemos chegar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ser bom sendo mal


Com a consciência de que todas as nossas ações de bondade são como trapo imundo aos olhos do Senhor, procure ser uma boa pessoa o máximo que puder/conseguir, mas não faça autopromoção. Muito menos tente provar seus esforços para alguém. As pessoas que exigem provas de nosso caráter são as mesmas que não merecem tal atenção.
Em um mundo de canalhas, esse será um diferencial. Os canalhas estão sempre tentando se autopromover por meio de uma falsa bondade para depois cobrar e manipular.
Um dos maiores desafios é ser você mesmo. As pessoas estão o tempo todo nos dizendo como devemos ser/estar, o que pensar e o que sentir também.
Se seguirmos corremos o risco de virar um Frankenstein, um ser com pedaços de outras pessoas, deixando nossa identidade ser moldada por palpiteiros.
E são esses mesmos que quando estamos em crise acham que sabem como resolver nossa vida sem a menor noção de que se estamos passando por problemas é porque já perdemos o controle da situação e certos comentários/conselhos não fazem sentido.
Como alguém que bate o carro em um acidente e ouve a frase “era só frear antes”.
Afinal o problema alheio é sempre tão fácil! Complicado são os nossos.
O mundo padece de falta de empatia.
Ignore pessoas que acham que sabem mais sobre você do que você mesmo, fazendo avaliações sem ao menos conhecer sua história.
E não espere que só porque alguém gosta de você/vice-versa, a pessoa possa lhe compreender ou ajudar, por mais que esteja imbuída de boas intenções.
Às vezes superestimamos e então vem a decepção, esperamos que o outro aja da maneira que achamos correto, e nem sempre o outro pensa/sente da mesma forma.
Permita que o outro seja ele mesmo.
E é sempre bom lembrar que a ignorância é vizinha da maldade. Por vezes o mal é causado pelo fato da pessoa não ter discernimento/bom senso necessário para a ocasião.
Seja paciente com as limitações alheias. Isso faz parte do primeiro parágrafo do texto (volte e releia).
Por fim, não importa o quanto nos esforçamos, estamos sempre em débito, com o próximo e com Deus.
Nossa bondade é cheia de maldade.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A estudante e a ABNT



Dialogo entre uma estudante imatura e uma senhora
Estudante: posso colocar figuras tipo... flor, um coraçãozinho?
ABNT: Não!
Estudante: E hashtag? Pode né?
ABNT: Claro que não!
Estudante: Nem no título, tipo #precisamosfalarsobre?
ABNT: Muito menos no título, tem que ser algo sério.
Estudante: Nossa como você é chata!
ABNT: É... eu sei, já me falaram isso. Mas olha, se você aprender minhas regras direitinho, vai fazer vários trabalhos bons e vai ficar preparada para trabalhos científicos.
Estudante: Eu não quero fazer trabalho cientifico, eu quero literatura (resmungando).
ABNT: Nada impede de fazer os dois, trabalho cientifico com literatura.
Estudante: Deve ser mais chato ainda. Não quero! (começa a choramingar)
ABNT: Imagina, você pode virar até doutora!
Estudante: Doutora?
ABNT: É, fazer um doutorado.
Estudante: Igual o tio Jonas? (volta ao normal)
ABNT: Isso mesmo.
Estudante: Seria legal ser doutora igual o tio Jonas.
ABNT: Então, vamos começar um trabalho cientifico?
Estudante: Não. Não quero fazer trabalho cientifico coisa nenhuma!
                  Eu quero poesia. Quero ser doutora em poesia.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Silêncio: bem e mal


Vivemos na era da comunicação, onde todos falam, expõem suas dúvidas e opiniões. O que vejo muitas vezes é na verdade uma comunicação de via única, em que não há troca, uma real comunicação. Todos falam e no fim ninguém comunica nada. Em parte porque cada um está mais interessado em ser a mensagem e não receptor da mensagem. Talvez por isso programas como o “Fala que eu te escuto” está no ar há algum tempo, as pessoas tem necessidade de serem ouvidas de fato, não apenas falar, mas sentir que a mensagem foi bem interpretada pelo receptor.  Pessoas que por algum motivo tem o hábito da escuta: psicólogos, psicanalistas, padres, pastores, voluntários do CVV (Centro de Valorização da Vida), entre outros, conhecem bem a importância do silêncio diante do depoimento de alguém. É preciso atenção, não só dos ouvidos, mas total para perceber o dito e principalmente o não dito.  O silêncio tem dupla face, para as pessoas citadas acima é o alivio de quem precisa desabafar, porém tem seu lado negativo.
Alfred Hitchcock explorou este lado negativo no filme “A Tortura do Silêncio”, em que um padre aparentemente um modelo da piedade religiosa, ouve a confissão de um assassino. As normas da igreja impedem o padre de falar - mesmo que seja em sua própria defesa - quando evidências circunstanciais apontam o padre como o principal suspeito do mesmo crime. Imagine-se na situação do padre, guardar silêncio pode ser uma tortura. Muitas vezes precisei calar para não ferir as pessoas, inclusive as mesmas que me feriram, evitando dizer o que pensava ou sentia.
Muitas vezes usei o silêncio também para ferir, calando-me como forma de punição ao outro. Como é difícil distinguir uma coisa da outra. Hora de calar e hora de falar. Houve momentos que me calei por causa de normas impostas, regras próprias e aprendidas.  Silêncio imposto sempre cobra a dívida, mais cedo ou mais tarde, o que foi engolido, será expelido e pior sem medir os danos.  O silêncio é um grande bem e um grande mal, cabe a nós pedirmos sabedoria para usá-lo.

Culpa e Perdão








Era uma vez, uma menina pequena e gordinha, o nome dela era Culpa
Culpa era pequena e pesada.
Tão pesada que ninguém queria brincar com ela, às vezes carregam-na por obrigação, ordem da mãe Consciência.
Não era aceita, cresceu sendo rejeitada, as pessoas tinham vergonha dela. Sempre que podiam a disfarçavam, a escondiam.
De vem em quando alguém a levava para a igreja, porque falavam que lá as pessoas a aceitariam, mas não era em todas não, só algumas.
Conheceu muita gente, fez amizades e tentou se adaptar. Foi difícil pois nem todas as pessoas a queriam por perto.
Muitos anos se passaram, enfim conheceu um rapaz que lhe disse que não se envergonhava dela e a aceitava como era. Casaram-se e tiveram uma filha.
Uma menina tão linda que ninguém resistia tamanha beleza.
Graça: filha da Culpa e do Perdão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Santidade & Castidade



Tem algo que me incomoda há tempos, mas não me sentia preparada para falar sobre o assunto, também não me sinto qualificada, mas criei coragem para expor meu posicionamento.
Sempre que vejo falarem sobre santidade, percebo que na verdade estão querendo falar sobre sexualidade e castidade, e o público-alvo é geralmente os jovens.
Vamos combinar que santidade não se reduz somente a castidade e que castidade não é assunto só de jovens?!
Para começar vamos definir o que significa cada palavra.
Santidade é a qualidade de quem é santo (simplificado).
Santo: Origem Hebraica קדוש “Qadash” ou “Kadosh” = sagrado, separado, consagrado. O conceito mais popular é “separado”, indica algo/alguém que é “separado” e “consagrado”.
Passagens bíblicas: 1ª Pedro 1:16. Filipenses 1:1-2. Gênesis 2:3.

Ser santo é ser separado do mundo, é fazer a vontade de Deus, é amar o que Deus ama e odiar o que Deus odeia. É ter fome e sede de justiça, é uma busca constante e verdadeira de seguir o Caminho, isto é, seguir Jesus. É viver e proclamar as Boas Novas.
Ser santo é refletir Cristo para o mundo.
Não devemos confundir santidade com regras morais, pois há a possibilidade de ser moral sem ser santo. E santidade vai além da castidade.
Infelizmente para muitos cristãos, santidade sempre está atrelada a questão sexual, como se o único critério para uma vida santa fosse viver a castidade, quando na verdade a sexualidade é um dos itens e não a totalidade de uma vida santificada. Reduzir santidade a questão sexual é no mínimo anti bíblico. Vivemos uma moralidade hipócrita nesse assunto e tratamos o tema com repúdio quando deveríamos tratar o cerne da santidade, um coração voltado ao Senhor.

Castidade: sf (latim; 'castitate').
1. Qualidade de casto, isto é, daquele que se abstém dos prazeres sexuais.
2. (Teol) Abstinência completa de todas as paixões desordenadas.
3. Pureza.
Percebam que abster-se dos prazeres sexuais é o primeiro e mais popular significado, no entanto o segundo significado (o teológico), diz respeito a abstinência das paixões desordenadas, o que isso significa?
Fomos criados segundo a ordem de Deus, e deveríamos viver em conformidade com Seus propósitos, mas o pecado original fez com que nossos desejos, vontades e inclinações não estejam alinhados com a ordem e os propósitos do Senhor, isto é, quando nossas paixões (vontades, desejos, inclinações) estão fora de ordem, pecamos.
Passagens bíblicas: Tito 2:12. Tito 3:3. Gálatas 5:24. 2 Timóteo 2:22. Romanos 7:5
Portanto segundo o conceito teológico, castidade vai muito além do sexo, tudo aquilo que nos domina, que escraviza, nos impede de ter uma vida santificada. Ser casto então significa a recusa em ser dominado por essas paixões fora da ordem do Criador.
A falta de domínio próprio é um empecilho para a santificação, seja na área sexual ou em qualquer outra.
“Ao contrário, o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, autodomínio. Contra tais coisas não existe lei.” (Gl 5, 22-23)

Castidade (abstinência sexual) não é sinônimo de santidade.
E sem castidade (abstinência de todas as paixões desordenadas) não é possível a santidade.

Que possamos entender melhor a relação santidade/castidade e buscar a santificação em todos os aspectos de nossa vida. Amém?

domingo, 20 de novembro de 2016

Terreno baldio ou Jardim?



Terreno baldio é um terreno abandonado ou sem dono. É caracterizado por falta de manutenção, mato alto, lixo ou entulho no local. Além de, por vezes, também serem encontrados animais como ratos e baratas. Também é comum a utilização indevida da área por marginais, como por exemplo para desova de cadáveres.
Um jardim é um espaço planejado, normalmente ao ar livre, para a exibição, cultivação e apreciação de plantas, flores e outras formas de natureza. A etimologia da palavra refere-se a "algo fechado", uma vez que teria origem no radical "garth", proveniente das línguas nórdicas e saxãs, que significa "cintura ou cerca".
Existem diversos tipos de jardins, que se diferenciam por suas características e funções. Jardinagem é a atividade de cultivar e manter um jardim. 

Na sua vida diária e nos relacionamentos você pode ser terreno baldio ou jardim. 
Quando você permite que as pessoas joguem seus lixos (frustrações, expectativas irreais) em você, ou quando as pessoas com as quais se relaciona não fazem manutenção do relacionamento fazendo crescer os matos (a distância, a falta de carinho e atenção) . Então existe a chance desse terreno baldio ter também animais como ratos e baratas (mágoas, ressentimentos). E por fim, esse terreno baldio terá cadáveres (gente que você matou em seu coração).
Você também pode ser jardim, ser uma pessoa aberta para a vida e para relacionamentos (jardim ao ar livre), mas ao mesmo tempo se preserve (como na etimologia da palavra "cerca"), isto é, não deixe qualquer um entrar, e não deixe que os convidados, pisem nas flores (seus sentimentos, valores). Cuide bem do seu jardim, mostre que tem dono (você) e que tem também um jardineiro (Deus). Aquele que não sabe diferenciar um terreno baldio de um jardim é um tolo cego. Não se perca tentando mostrar a diferença.
Apenas cuide do seu jardim, regue, pode, corte e você atrairá borboletas (pessoas que apreciam sua beleza e se alimentam do seu néctar).
Lembre-se a cada momento, a cada dia, em cada relacionamento você escolher ser terreno baldio ou jardim.
Eu escolho ser jardim!

sábado, 19 de novembro de 2016

A dor de existir


Na infância achava que viver era muito doloroso, ainda acho.
Refugiei-me nas Letras, em meus diários e nos livros. Escrever, ler, escrever; uma coisa como consequência da outra, e não me pergunte o que veio primeiro ou qual mais importante. Ler e escrever são as duas faces da mesma moeda.
Vivia num mundinho à parte, às vezes acho que era uma espécie de "autista"; socializava com todos, mas tinha/tenho um mundo só meu e nesse quase ninguém entra(va). Descobri que era o esconderijo perfeito para a dor, uma possibilidade de continuar existindo apesar do mundo cão à minha volta.
Meu diário era cheio de questões, procurava respostas nos livros, ainda procuro. As Letras me permitiram saber coisas das quais não saberia de outra forma.
A dor de existir era tão grande que parecia ser uma parte de mim como um membro defeituoso, por vezes ela extravasava. Então escrevia…. como forma de fugir da realidade, para continuar existindo.
A literatura me adotou e como dizem os filósofos a arte representa um paliativo para o sofrimento humano.
Essa dor que sabe-se lá de onde vem e não sei quando vai embora estava/está presente o tempo todo. Ao acordar, enquanto caminho para a escola/trabalho/faculdade... Continua a cada respirar.
Enquanto caminho só, sinto seu peso, esmagando minha alma.
Por vezes, me distraio e a esqueço. E por alguns instantes sou feliz, ah quem me dera!
Quando converso de forma profunda com uma amiga íntima. Quando contemplo a Beleza, são vislumbres de uma terra da qual sou turista.
E logo vem ela, a Grande Tristeza com seus dentes afiados me morder novamente. E arranca de mim a força que não tenho para continuar.
O mundo exige coisas que não possuo, talvez nunca possua. Mas desistir não é uma opção.
E a dor vai se metamorfoseando, ora vira vazio, ora melancolia, por vezes doença. Cada dia uma coisa. E nesses intervalos, entre brechas, ela me permite viver.
Quando a Grande Tristeza sai para um passeio, penso que já senti tudo o que tinha pra sentir, e de agora em diante serão apenas porções menores do que já vivi. Nada novo debaixo do sol, como diz o pregador.
Os monstros e fantasmas que me habitam saem para passear, vão tomar um banho de sol, assombrar outras almas.
E a vida que parecia lago, torna-se rio em direção ao mar.
E esse mar que nunca alcanço!
E essa vida como ferida em carne viva!
Sei que meu Redentor vive e a esperança é a âncora da minha alma.
Sei principalmente que não existe vida fora da Palavra.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Expectativas e frustrações


Já houve época em que acreditei no clichê “o importante é ser feliz”, hoje sei que o importante mesmo é cumprir a missão antes de partir.

A ingenuidade também me fez acreditar que deveria ser “boazinha”. Hoje sei que bondade não tem a ver com complacência burra, isto é, permitir ser manipulada e usada. Aprendi que a empatia é importante e que a dignidade também, e ainda melhor quando consigo unir as duas coisas.
Por que é tão difícil praticarmos uma verdadeira empatia e alteridade pelas pessoas que estão à nossa volta sem se perder no caminho?
É possível ser esvaziados de si na doação sem ser roubados em nossa subjetividade?
Como é bom encontrarmos alguém para se desnudar, compartilhar nossa história, criar laços de alma!
Mas, e quando as coisas não vão bem? Como é ouvir exatamente o que eu disse, só que agora contra mim? Ou ser ridicularizado por nossas peculiaridades?
Soltar ou não os nossos fantasmas correndo o risco de sermos assombrados depois?
Bem sei que não tenho controle sobre as ações de outras pessoas, afinal mal tenho controle sobre minhas próprias ações. “Pois o bem que quero, não faço; mas o mal que não quero, este faço.”
Cada pessoa é um universo único: teve outra vida, outras vivências, outros traumas, outras questões. Não posso e não devo compará-la com minha vida ou com qualquer outra pessoa/vida. A singularidade é uma das características mais belas do ser humano. Cada pessoa que conhecemos é um quebra-cabeça, nem por isso precisamos decifrá-la de imediato.
Às vezes ficamos tentando entender o que não é possível apenas pelo intelecto, é preciso acolher para que o relacionamento desabroche e só depois, talvez possamos compreender. Entrar no mundinho alheio leva tempo e exige paciência.
Interaja com empatia, ouça sem pensar em retrucar, sem dizer o que teria feito no lugar dela, ou naquela coisa parecida que aconteceu com um amigo seu. Deixe de lado suas opiniões, seus julgamentos de valor.
Se a pessoa pedir expressamente sua opinião, seja comedido; nem sempre conhecemos todo o enredo. Conhecendo-se aos poucos, as expectativas e frustrações podem diminuir.
As pessoas sempre reclamam das decepções. Frustramo-nos quando o outro não age da forma como esperávamos. No entanto, já parou para pensar nesse outro, no fardo que colocamos nele?
As pessoas não tem a obrigação de atender nossas expectativas.
Muitas vezes a decepção é só nossa, somos responsáveis pelo que sentimos. Ignoramos o direito de cada um ser o que é, exigindo que sua pessoalidade se enquadre em nossos critérios.
As expectativas nos aprisionam e coloca o outro em uma prisão também.
Se quiser ter certeza do fracasso de um relacionamento é isto, esperar que o outro seja/faça/aja/conforme esperamos.
Sinceramente, não quero que as pessoas esperem muito de mim, não sou perfeita nem boazinha. Sou egoísta por natureza, preguiçosa, entre tantos outros adjetivos negativos.
Falar sobre eles não é uma desculpa para agir mal, mas reconhecer a minha incapacidade de atender as minhas próprias expectativas que são grandes o suficiente para que eu venha também carregar as expectativas alheias.
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

domingo, 16 de outubro de 2016

Sobre o sentido da vida


A meditação sobre a finitude da vida amadurece, aproximar-se da morte e sentir o cheiro da insignificância de tudo nos dá uma amostra de uma sabedoria que creio só os antigos saborearam. Nossa modernidade líquida, como diria Bauman, não medita mais sobre a brevidade da vida.
Para as pessoas rasas, que não pensam em longo prazo, principalmente sobre as
consequências de suas ações, a vida é bela e ponto. Porém, mais do que bela, a
vida exige respostas, responsabilidade.
A preciosidade da vida reside justamente em sua brevidade.
Sábio é aquele que responde às situações da vida cônscio de sua fugacidade.
Ser sábio não significa dar sempre as respostas certas, não cair, não falhar.
Sábio é aquele que diante das fragilidades aprende a transformar a si mesmo. É nas fragilidades que a dor rima com amor, no exercício da compaixão, dada e recebida.
Não podemos fugir da dor e da morte, são coisas que cedo ou tarde nos encontrará, o que podemos fazer é dar dignidade a nossa morte, é elevar o valor da nossa dor.
Dar dignidade a nossa morte é deixar um legado, uma vida que deixa marcas indeléveis, um legado é quando suas pegadas não são apagadas facilmente, ao contrário, são seguidas.
Elevar a dor é usá-la para o bem do próximo. É dar um significado maior do que sua própria vida.

Unir suas experiências a outras vidas é dar sentido à existência.